
Caso Beti Hohler: Conta bancária congelada, cartão de crédito bloqueado: Por que os EUA estão perseguindo um juiz europeu – Imagem: Xpert.Digital
Por causa do mandado de prisão de Netanyahu: como o governo dos EUA quer paralisar o Tribunal Penal Internacional
Sanções dos EUA contra juízes do TPI: por que a Europa permanece inerte nessa luta pelo poder?
Na lista de terroristas: O ataque sem precedentes dos EUA contra o juiz de Haia – Quando os EUA tratam um juiz de alta instância como um cartel de drogas
Trata-se de um evento sem precedentes na história da jurisprudência internacional: o governo dos EUA incluiu juízes e funcionários do Tribunal Penal Internacional (TPI) em listas de sanções destinadas a combater terroristas, cartéis de drogas e ditadores hostis. No centro dessa convulsão geopolítica está, entre outros, a juíza eslovena Beti Hohler. Seu "crime"? Ela desempenhou um papel fundamental na emissão de mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o ex-ministro da Defesa Yoav Galant e figuras importantes do Hamas. As consequências para Hohler e seus colegas são drásticas: em 24 horas, contas bancárias foram encerradas, cartões de crédito bloqueados e o acesso cotidiano a plataformas digitais foi cortado.
Mas por trás dessas enormes restrições pessoais reside um conflito estrutural muito maior. Ele diz respeito à questão fundamental de saber se o direito penal internacional se aplica universalmente a todos — incluindo as grandes potências e seus aliados mais próximos — ou se os Estados poderosos podem se colocar, juntamente com seus parceiros, acima da lei com impunidade. Ao mesmo tempo, o caso se torna um teste de resistência brutal para a Europa: pode a União Europeia proteger suas próprias instituições de Estado de Direito e seus juízes europeus da enorme pressão extraterritorial de Washington, ou a reivindicação europeia de "autonomia estratégica" é aqui exposta como mera ilusão? A análise a seguir esclarece o contexto das sanções americanas, as motivações político-poderosas por trás delas e as graves consequências para a ordem global.
Por que Beti Hohler foi punida?
- Hohler fazia parte da câmara do TPI que emitiu mandados de prisão contra Netanyahu e Galant por alegados crimes de guerra na Faixa de Gaza; a mesma decisão também confirmou os mandados de prisão contra três líderes do Hamas.
- O governo dos EUA, sob a presidência de Donald Trump, acusa o TPI de "ação direcionada" contra os EUA e Israel e respondeu com sanções ao abrigo da legislação americana (lista OFAC), que na verdade se destina a organizações terroristas, cartéis de drogas ou "atores hostis".
- Por meio da Ordem Executiva 14203, de 6 de novembro de 2024, Trump autorizou o congelamento de bens e extensas restrições financeiras e comerciais contra pessoas ligadas ao TPI envolvidas nesses mandados de prisão.
- A consequência concreta para Hohler: um banco europeu encerrou sua conta, seus cartões de crédito foram bloqueados em 24 horas e seu ID Apple, assim como contas em plataformas americanas como Amazon e Airbnb, foram bloqueados ou encerrados, o que restringe drasticamente sua vida diária.
Isso significa que um tribunal internacional que aplica o direito penal internacional é tratado politicamente de forma semelhante aos grupos contra os quais ele próprio emite mandados de prisão por terrorismo ou crimes de guerra.
Quem mais está nessa lista de sanções dos EUA?
Inicialmente, em junho de 2024, quatro juízes do TPI foram incluídos na lista de sanções do OFAC:
- Solomy Balungi Bossa (Uganda)
- Luz del Carmen Ibáñez Carranza (Peru)
- Puro Alapini-Gansou (Benim)
- Beti Hohler (Eslovênia)
O motivo disso foi, em primeiro lugar, as investigações do TPI sobre supostos crimes de guerra cometidos por soldados americanos no Afeganistão e, em segundo lugar, os mandados de prisão expedidos contra Netanyahu e Galant no contexto da guerra em Gaza.
Segundo diversos relatos, um total de onze funcionários do TPI foram afetados, incluindo oito juízes; além das quatro juízas, entre os afetados estão membros da liderança da acusação que estiveram envolvidos nos julgamentos de Israel e do Hamas.
A UE e vários Estados criticam veementemente essas sanções americanas, salientando que os juízes não devem ser tratados como terroristas na aplicação do direito internacional.
Apesar das fortes críticas internacionais e da evidente ambiguidade legal e moral dessa abordagem, Washington mantém sua postura intransigente. Por trás dessas medidas coercitivas drásticas, esconde-se muito mais do que um mero incômodo passageiro com investigações indesejadas. Uma análise mais aprofundada das motivações estratégicas revela:
As sanções dos EUA contra Beti Hohler e outros juízes do TPI são, antes de tudo, um sinal político de poder: Washington defende a liberdade de ação militar dos EUA e de Israel contra a supervisão independente do direito penal internacional – e usa deliberadamente juízes europeus como exemplo para criar um efeito dissuasor. Para a Europa, isso exacerba um conflito fundamental de longa data: entre a pretensão de ser a guardiã de uma ordem internacional baseada em regras e a dependência de fato dos EUA em questões de segurança, tecnologia e finanças, o que até agora impediu, em grande parte, uma resposta decisiva.
Ponto de partida: O que exatamente aconteceu?
O contexto imediato deste caso é o mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o ex-ministro da Defesa Yoav Galant e importantes comandantes do Hamas por supostos crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante a Guerra de Gaza. Beti Hohler fazia parte da câmara que concedeu esses pedidos do procurador-geral.
A administração Trump respondeu com sanções direcionadas e personalizadas contra juízas e funcionárias do TPI, inicialmente quatro juízas (incluindo Hohler), posteriormente um total de onze indivíduos, incluindo a procuradora-chefe. Essas sanções são impostas sob a lei de sanções dos EUA (lista do OFAC) e, tecnicamente, tratam os afetados da mesma forma que organizações terroristas, cartéis de drogas ou "atores hostis"
- Congelamento de ativos nos EUA.
- Proibição de todas as transações financeiras por meio de bancos americanos ou com cidadãos americanos.
- Bloqueio de cartões de crédito, encerramento de contas bancárias, bloqueio de serviços digitais (Amazon, Apple, Airbnb, etc.).
Na reportagem da ZEIT, Hohler descreve vividamente como, em 24 horas, seu cartão de crédito parou de funcionar, sua conta em um banco europeu foi encerrada, plataformas americanas bloquearam suas contas e até mesmo coisas do dia a dia – compras online, viagens, reservas de hotel – de repente se tornaram extremamente difíceis.
O cerne simbólico é importante: os EUA não estão declarando o TPI como instituição, mas juízes individuais como "ameaças à segurança nacional" e "agentes maliciosos" porque permitem investigações e mandados de prisão que também afetam soldados americanos ou aliados importantes, como Israel.
Motivação política dos EUA: Cinco níveis
Proteção da própria projeção de poder e "política de guerra"
O TPI opõe-se explicitamente à responsabilização penal individual por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio – inclusive contra funcionários de Estados democráticos. É precisamente aí que reside o principal ponto de discórdia com Washington
- Os EUA não são signatários do Tratado do TPI, mas, mesmo assim, desejam liberdade de ação militar global sem que soldados americanos ou altos funcionários políticos tenham que lidar com processos judiciais internacionais.
- As investigações do TPI sobre os alegados crimes de guerra dos EUA no Afeganistão já haviam provocado forte resistência nos anos anteriores; o novo elemento é que agora um chefe de governo ocidental (Netanyahu) é o alvo direto.
Politicamente, as sanções enviam um sinal a todas as instituições internacionais:
Qualquer pessoa que desafie legalmente as práticas militares e de política de segurança dos EUA ou de seus aliados mais próximos deve esperar custos pessoais significativos. Isso vai muito além da diplomacia tradicional e constitui um uso deliberado do próprio poder financeiro e de influência como forma de pressão.
Dissuasão e "efeito inibidor" sobre juízas e promotoras
Um segundo nível é a intimidação direcionada àqueles que tomam as decisões:
- A seleção dos sancionados demonstra que Washington não age arbitrariamente, mas sim sanciona os juízes que tomaram decisões importantes em favor de investigações de grande alcance – por exemplo, em relação à ampliação do julgamento no Afeganistão ou aos mandados de prisão no contexto de Gaza.
- A mensagem é clara: certas linhas – investigações contra pessoal americano, políticos israelenses de alto escalão e, possivelmente, futuras operações militares da OTAN – são linhas vermelhas, cuja transposição acarretará ruína econômica pessoal.
Isso não visa necessariamente interromper imediatamente os processos em andamento (embora isso seja, obviamente, levado em consideração), mas sim "arrefecer" futuras decisões do TPI em casos limítrofes:
juízes e procuradores devem considerar, a cada passo que afete os interesses dos EUA, se estão, com isso, se tornando alvos de sanções.
Esse “efeito inibidor” é extremamente eficaz politicamente porque não exige influência formal sobre o tribunal, mas altera as avaliações individuais de risco dos envolvidos.
Sinais políticos internos: postura firme em relação a instituições “anti-Israelenses” e “anti-americanas”
A posição de Donald Trump em relação ao TPI agrada a importantes correntes dentro de sua base política interna:
– Forte ceticismo em relação às instituições internacionais, que são percebidas como uma restrição à soberania nacional.
– Apoio político quase incondicional a Israel, onde qualquer forma de igualdade legal (como mandados de prisão contra israelenses e membros do Hamas) é interpretada como “anti-Israel”.
A formulação linguística das sanções – o TPI como uma “instituição falida”, como uma ameaça à segurança nacional, como “maliciosa” – é compatível, internamente, com um ataque mais amplo às instituições, à mídia e às elites “globalistas”.
Isso coloca os juízes do TPI em uma categoria simbólica semelhante, internamente, à da OMS, do Conselho de Direitos Humanos da ONU ou da OMC quando criticam a política dos EUA: como um “inimigo” ou “oponente”, não como um parceiro dentro de uma ordem multilateral.
Proteger Israel como um aliado estratégico
Um quarto motivo político explícito é a proteção de Israel – não apenas funcionalmente (como aliado no Oriente Médio), mas também normativamente:
- O mandado de prisão contra Netanyahu é o primeiro contra o chefe de governo de um importante aliado democrático, fortemente apoiado pelo Ocidente.
- Do ponto de vista dos EUA e de muitos aliados de Israel, tal precedente poderia abrir uma porta através da qual outros líderes ocidentais também poderiam se aproximar de enfrentar responsabilidade criminal por operações militares no futuro.
Portanto, o governo dos EUA está apresentando o mandado de prisão como um ataque a Israel e não como parte de uma aplicação geral e neutra em relação ao status do direito penal internacional.
Politicamente, isso se encaixa perfeitamente em uma série de legislações americanas anteriores, como a "Lei de Proteção dos Militares Americanos" ("Lei de Invasão de Haia"), que, em casos extremos, prevê até mesmo operações militares para libertar cidadãos americanos presos em Haia. As sanções atuais são o equivalente econômico disso: não apenas o pessoal americano, mas também seus aliados mais próximos devem ser protegidos do TPI.
Sinal geopolítico: Quem define as regras – o TPI ou as grandes potências?
Em última análise, a política de sanções é um elemento em um debate mais amplo sobre quem define as regras da ordem internacional:
- O TPI incorpora a ideia de que o direito penal internacional deve ser aplicado universalmente, independentemente do poder de um Estado.
- Os EUA (e também a Rússia, que emitiu mandados de prisão contra juízes do TPI após o mandado de prisão contra Putin) alegam, por outro lado, que sua alta liderança e suas principais operações militares estão fora dessa lógica.
Na lógica das grandes potências, duas ideias competem:
- Um princípio fundamental é que a lei prevalece sobre o poder e se aplica até mesmo aos poderosos.
- Outra questão é que certos Estados são, de facto, “grandes demais” para uma supervisão criminal genuína por parte de tribunais internacionais.
As sanções dos EUA contra Hohler e outros juízes são um passo muito claro a favor da segunda apresentação.
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Nossa experiência na UE e na Alemanha em desenvolvimento de negócios, vendas e marketing - Imagem: Xpert.Digital
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Entre a norma e a realidade: a Europa protege?
Implicações para a Europa: Três níveis de desafio
Autoafirmação normativa versus real disposição para agir
Durante anos, a UE apresentou-se como defensora de uma ordem internacional baseada em regras, como uma apoiante leal do TPI e como uma potência normativa que coloca os direitos humanos e o direito internacional no centro da sua política externa.
As reações verbais às sanções americanas foram correspondentemente duras:
- A UE e cada um dos seus Estados-Membros condenaram as medidas, considerando-as um ataque à independência do poder judicial e ao direito penal internacional.
- Organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, apelaram explicitamente à UE para que protegesse o TPI não apenas retoricamente, mas também com contramedidas concretas, como o Regulamento de Bloqueio.
Mas, além das explicações, a reação tem se mantido notavelmente contida até o momento:
- A UE não impôs quaisquer contra-sanções notáveis contra os EUA.
- O Regulamento de Bloqueio, que proíbe as empresas europeias de cumprirem as sanções extraterritoriais dos EUA e lhes garante o direito a uma indemnização, ainda não foi utilizado de forma agressiva, apesar de ter sido criado precisamente para casos como este.
Essa discrepância entre as aspirações normativas e a real disposição para agir mina a credibilidade da Europa como guardiã da ordem do Estado de Direito. Se a Europa não conseguir proteger seus próprios juízes e tribunais da pressão dos EUA, qualquer conversa sobre "autonomia estratégica" para o futuro soará vazia.
Consequências práticas para o TPI e os juízes europeus
Para os afetados, as consequências são muito concretas:
- Bloqueio de contas e cartões, interrupções em transações de pagamento, perda de acesso a serviços digitais sediados nos EUA, dificuldades de viagem.
- Riscos potenciais para as instituições europeias que cooperam com a ICC (bancos, prestadores de serviços, parceiros de TI), uma vez que elas próprias podem tornar-se alvos do regime de sanções dos EUA.
Uma postagem em um blog de direito constitucional enfatiza que as sanções dos EUA são usadas deliberadamente de forma seletiva para atingir os principais juízes e atores responsáveis por decisões impopulares – mas não todas as pessoas envolvidas no processo.
Isso cria um mecanismo pérfido:
- “Risco para a carreira”: Juízes que defendem consistentemente investigações de grande alcance enfrentam um risco pessoal maior de serem incluídos nas listas de sanções dos EUA.
- “Paralisia institucional”: Sem uma proteção clara por parte de seus estados de origem, os juízes podem tender a lidar com casos sensíveis com cautela para não comprometer sua existência financeira e digital.
A Europa enfrenta um duplo desafio: primeiro, tornar o TPI tecnicamente independente da infraestrutura dos EUA (por exemplo, desenvolvendo seus próprios escritórios virtuais, serviços de nuvem europeus e métodos de pagamento). Segundo, fornecer aos seus cidadãos que trabalham para o TPI garantias de segurança confiáveis, como garantias bancárias, proteção contra demissão devido a sanções e meios legais para se defenderem da pressão dos EUA.
Autonomia estratégica e tensões transatlânticas
Em um nível mais elevado, as sanções representam um teste para a tão citada “autonomia estratégica” da Europa:
- Se a UE não for capaz de proteger a independência de um tribunal que apoia fortemente, tanto política quanto financeiramente, estará efetivamente sinalizando que a legislação de sanções dos EUA prevalece sobre os padrões europeus.
- Isso reforça a impressão de que a Europa é demasiado dependente, em termos económicos, tecnológicos e de política de segurança, para fazer cumprir os seus próprios princípios em caso de conflito.
A Euronews já havia noticiado, quando as primeiras sanções foram impostas, que o fosso entre os parceiros transatlânticos é claramente visível: a UE critica duramente, mas abstém-se de tomar medidas concretas.
Essa relutância tem vários motivos:
- Dependência de segurança: Especialmente no contexto da agressão russa na Ucrânia, a Europa depende fortemente do apoio militar dos EUA.
- Interdependência financeira e tecnológica: Grande parte das transações de pagamento, computação em nuvem, infraestrutura de software e serviços digitais na Europa depende de empresas americanas.
- Fragmentação política: Dentro da UE, existem opiniões divergentes sobre como lidar com os EUA e Israel, o que dificulta a adoção de contramedidas conjuntas decisivas.
No entanto, a cada sanção extraterritorial não respondida, a assimetria estrutural aumenta: quanto mais a Europa se curva, mais normal se torna que a lei dos EUA afete as pessoas em Haia, Bruxelas ou Berlim de forma mais eficaz do que a lei europeia.
Consequências a longo prazo para o sistema jurídico internacional
Erosão da universalidade do direito penal internacional
A combinação da pressão dos EUA e da Rússia sobre o TPI – sanções, mandados de contraprisão, ameaças políticas – leva, a médio prazo, a uma erosão da ideia de que o direito penal internacional é universalmente aplicável.
Na prática, cria-se um mundo com duas classes de estados:
- Estados cujos líderes e militares devem realisticamente esperar processos judiciais (especialmente Estados de pequeno e médio porte, Estados do Sul Global, mas também alguns países europeus, a menos que sejam protegidos pelas grandes potências).
- Estados que usam seu poder para se esquivar da justiça penal internacional e proteger a si mesmos e a seus principais aliados.
Isso envia um sinal devastador às vítimas dos crimes mais graves – especialmente em conflitos que envolvem grandes potências ou potências protetoras. Se o TPI, por medo de sanções, agir consistentemente apenas quando nenhuma grande potência estiver envolvida, corre o risco de se tornar um “tribunal para os fracos”.
“Soberania” como grito de guerra político
Tanto os EUA quanto a Rússia invocam a soberania nacional em suas críticas ao TPI. Eles argumentam que um tribunal internacional não tem o direito de investigar seus cidadãos ou políticos de alto escalão sem o seu consentimento.
Isso transforma a soberania em um grito de guerra político contra o direito penal internacional:
- Os estados menores têm pouca margem de manobra para usar tais argumentos de forma credível, simplesmente porque não têm poder para os impor.
- Para as grandes potências, a soberania torna-se a justificativa para a imunidade seletiva – um retrocesso em relação aos princípios de Nuremberg e ao direito penal internacional pós-1945.
A Europa ocupa uma posição intermediária neste contexto: possui elevadas aspirações normativas e é a patrocinadora do projeto do TPI, mas não detém o mesmo poderio militar que os EUA.
A forma como a UE responderá, com medidas concretas (regulamentações de bloqueio, programas de proteção, investimentos em independência tecnológica), determinará, em última análise, se a soberania será entendida no futuro mais como um escudo contra o direito internacional ou como a base para uma política externa autoconfiante e em conformidade com a lei.
Resiliência institucional do TPI
As reações vindas da própria Haia mostram que o tribunal está bem ciente da pressão, mas enfatiza publicamente que não se deixará intimidar.
- Representantes do TPI condenam as sanções como uma tentativa de minar a independência do tribunal.
- Ao mesmo tempo, existe uma pressão crescente para se tornar mais independente, técnica e organizacionalmente, da infraestrutura dos EUA: por exemplo, através de soluções de TI europeias, métodos de pagamento alternativos e redes de segurança institucional para os juízes afetados.
No entanto, esses ajustes são caros e complexos e exigem, sobretudo, que a Europa esteja preparada para investir mais recursos financeiros e políticos na proteção de "suas" instituições.
Uma publicação em um blog constitucional argumenta que um regime de bloqueio aplicado de forma consistente, aliado a uma diversificação da base técnica, poderia fortalecer a resiliência do TPI não apenas simbolicamente, mas na prática – e, ao mesmo tempo, representar um passo em direção a uma maior soberania europeia.
Que opções tem a Europa?
Opções de curto prazo
A curto prazo, a UE poderia tomar várias medidas sem correr o risco de uma ruptura transatlântica, mas ainda assim alterar a sua mensagem:
- Aplicação ativa do Regulamento de Bloqueio: Diretrizes claras para bancos, provedores de serviços de TI e outras empresas de que não devem cumprir as sanções dos EUA contra juízes europeus e receberão apoio em caso de danos causados por contramedidas dos EUA.
- Mecanismos de proteção financeira: fundos da UE ou dos Estados-Membros para salvaguardar os ativos das pessoas afetadas, como contas bancárias, cartões de crédito e apólices de seguro, na Europa, independentemente das sanções dos EUA.
- Pressão diplomática: Discussão sistemática de sanções em fóruns transatlânticos, expectativa clara de que os EUA não incluam, pelo menos, juízas em exercício nas listas destinadas a terroristas.
Tais medidas não resolveriam o conflito, mas mudariam o sinal: a Europa está preparada para arcar com os custos da defesa de sua própria concepção de Estado de Direito e independência judicial.
Etapas estruturais e de médio prazo
A médio prazo, o foco está nas questões estruturais de dependência:
- Infraestrutura digital e financeira: Expansão de alternativas europeias às plataformas americanas (nuvem, serviços de pagamento, software) para que as principais instituições internacionais não permaneçam vulneráveis a extorsões via Apple ID, rede Visa ou AWS.
- Esclarecimento jurídico: Desenvolvimento de um quadro jurídico específico da UE para proteger pessoas que atuam no exercício de funções judiciais ou de acusação internacionais – semelhante à proteção diplomática, mas adaptada aos juízes.
- Consolidação política: Internamente, uma linha mais clara de que o direito penal internacional também se aplica quando se torna politicamente desconfortável – por exemplo, no caso de mandados de prisão contra aliados ou em casos de importância simbólica.
Um artigo na revista Surplus argumenta que as sanções americanas são uma espécie de "teste de estresse" para a autoimagem da Europa: elas mostram a rapidez com que a UE está disposta a relativizar seus próprios valores quando a pressão de Washington se intensifica. Quanto mais passiva a Europa se mantiver, mais forte se tornará a percepção de que ela só protege suas próprias instituições enquanto não houver consequências reais.
O que este caso revela sobre a ordem internacional?
As sanções contra Beti Hohler e outros juízes do TPI são mais do que uma disputa de política externa. Elas expõem um conflito fundamental:
- Por um lado, existe a ideia de um direito penal internacional universal que também possa responsabilizar atores poderosos.
- Por outro lado, as principais potências militares e nucleares alegam que seus interesses fundamentais e seus mais altos funcionários estão, de fato, fora desse sistema.
Os EUA estão usando seu poder financeiro, tecnológico e geopolítico para impor essa segunda posição – se necessário, em detrimento da liberdade individual dos juízes europeus. A resposta da Europa até agora tem sido principalmente verbal, e não enérgica.
Para a ordem internacional, isso significa:
- Se a Europa não estiver preparada para arcar com os custos de proteger suas próprias instituições judiciais contra a pressão dos EUA, a universalidade do direito penal internacional se tornará uma ficção, pelo menos no que diz respeito às grandes potências.
- Por outro lado, se a situação se agravar – com regulamentações de bloqueio, mecanismos de proteção e investimentos em infraestrutura – o caso Hohler poderá, paradoxalmente, tornar-se um catalisador para uma maior soberania europeia e um sistema de justiça internacional mais robusto.
Nesse sentido, o conflito em torno do caso Beti Hohler é um teste decisivo: não apenas para a independência dos juízes individualmente, mas também para a questão de saber se a tão alardeada “ordem baseada em regras” é mais do que uma fórmula – e se a Europa está preparada para defendê-la mesmo quando a pressão vem de Washington e o preço se torna politicamente e economicamente perceptível.

