Ícone do site Especialista.Digital

Terras raras – O novo campo de batalha geopolítico: o Brasil percebe sua oportunidade, enquanto americanos e japoneses dominam o mercado

Terras raras – O novo campo de batalha geopolítico: o Brasil percebe sua oportunidade, enquanto americanos e japoneses dominam o mercado

Terras raras – O novo campo de batalha geopolítico: o Brasil percebe sua oportunidade, enquanto americanos e japoneses dominam o mercado – Imagem: Xpert.Digital

O gigante adormecido desperta: como o Brasil quebra repentinamente o perigoso monopólio chinês sobre matérias-primas

Compras em pânico no mercado global: EUA e Japão estão comprando terras raras em larga escala – Alemanha enfrenta estagnação

Os elementos de terras raras são o petróleo do século XXI – e a disputa por eles já se intensificou há muito tempo. Enquanto a economia global depende urgentemente desses metais críticos para a transição energética, a eletromobilidade e os armamentos modernos, a China transformou seu enorme poder de mercado em uma poderosa arma geopolítica. Com drásticas restrições às exportações em 2025 e 2026, Pequim pegou o Ocidente de surpresa. O resultado é uma corrida sem precedentes pelos recursos restantes: enquanto os EUA e o Japão usam pressão diplomática e acordos bilionários para dominar o mercado e garantir direitos exclusivos ao gigante emergente de recursos naturais, o Brasil, a Europa – e a Alemanha em particular – corre o risco de ficar definitivamente para trás na luta pela soberania tecnológica. Esta análise esclarece por que os preços de elementos críticos como o neodímio e o térbio estão disparando, por que novas minas por si só não resolverão o problema e como a ordem global das políticas de recursos naturais está mudando drasticamente diante de nossos olhos.

Quem controla os ímãs controla o futuro

As terras raras têm sido um tema geopolítico delicado há anos, mas os eventos de 2025 e 2026 mudaram fundamentalmente a situação. O que antes era considerado um debate abstrato sobre riscos de abastecimento entre especialistas tornou-se uma emergência econômica: a China está cortando o fornecimento, o Ocidente está comprando recursos em pânico e países como o Brasil estão aproveitando a oportunidade. Quem entende o que está acontecendo nesse mercado também entende por que carros elétricos não estão mais saindo das linhas de montagem em Chicago, por que uma varejista de Berlim não recebe entregas há meses e por que os EUA estão investindo meio bilhão de dólares em uma mineradora brasileira.

O que são, de fato, os elementos de terras raras e por que eles estão mudando tudo

O termo "raro" é enganoso neste contexto. Os 17 elementos químicos do grupo dos lantanídeos, assim como o escândio e o ítrio, estão de fato presentes na crosta terrestre – mas raramente em concentrações que permitam a exploração economicamente viável. O que realmente os torna raros não é sua abundância geológica, mas suas propriedades físicas, magnéticas e químicas únicas, que os tornam indispensáveis ​​para uma ampla gama de aplicações de alta tecnologia.

O neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio formam o subgrupo de maior importância estratégica: são os componentes principais dos ímãs permanentes, os ímãs mais fortes que se conhece. Esses ímãs de neodímio-ferro-boro são encontrados nos motores elétricos de veículos elétricos, nos geradores de turbinas eólicas, em robôs industriais, em drones, em sistemas de caças como o F-35, em sistemas de defesa antimíssil e em satélites. Sem eles, nem a transição energética nem a tecnologia de defesa moderna seriam concebíveis. Toda a eletrificação da economia depende desse grupo relativamente pequeno de metais.

Este é o cerne do problema: a demanda está crescendo exponencialmente porque a eletromobilidade, as energias renováveis ​​e os armamentos estão em plena expansão simultaneamente – e uma proporção assustadoramente alta da oferta está nas mãos de um único país.

O poder de mercado da China – um monopólio conquistado por meio de décadas de estratégia direcionada

A China controla atualmente cerca de 70% da mineração mundial de terras raras e quase 90% do refino global. Embora apenas cerca de 58% da extração das matérias-primas necessárias para ímãs permanentes, essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas e robótica, esteja em mãos chinesas, a China responde por 92% da produção dos produtos finais correspondentes. A União Europeia importa 98% de seus ímãs de terras raras da China. De acordo com a Benchmark Mineral Intelligence, as empresas chinesas respondem por 99% do processamento mundial de terras raras.

Essa dominância não é acidental, mas sim o resultado de décadas de política industrial estratégica. A China não apenas organizou a extração mais rentável, como também, por meio de subsídios estatais maciços, normas ambientais flexíveis e investimentos tecnológicos direcionados, construiu uma cadeia de valor que vai da extração ao ímã final, algo que o Ocidente simplesmente não consegue replicar sem investir tempo considerável e somas imensas de dinheiro. A famosa frase de Deng Xiaoping – "O Oriente Médio tem seu petróleo, a China tem suas terras raras" – provou ser o modelo para uma das estratégias de matérias-primas mais eficazes da história.

A situação é particularmente crítica no que diz respeito aos elementos de terras raras pesados, como o disprósio e o térbio. A China detém um quase monopólio nessa área, já que esses elementos ocorrem quase exclusivamente em depósitos de adsorção iônica no sul da China, no Vietnã e – como se torna cada vez mais evidente – no Brasil. Os elementos de terras raras leves, como o neodímio e o praseodímio, são mais dispersos geograficamente, mas também nesse caso, o Ocidente não possui a capacidade de refino e separação necessária para operar de forma independente.

Embargo às exportações como arma geopolítica – a escalada da China a partir de abril de 2025

Durante muito tempo, as restrições de exportação da China pareceram em grande parte teóricas. Isso mudou abruptamente em abril de 2025, quando o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) introduziu, pela primeira vez, controles de exportação para sete elementos de terras raras: samário, escândio, disprósio, térbio, gadolínio, lutécio e ítrio, bem como suas ligas, misturas e ímãs permanentes. As empresas que desejassem importar esses materiais da China passaram a ser obrigadas a solicitar licenças – com resultados incertos.

As medidas foram drasticamente ampliadas em outubro de 2025. Em 9 de outubro, o Ministério do Comércio (MOFCOM) publicou seis novos avisos estendendo o regime de controle de exportação para incluir elementos adicionais como hólmio, érbio, túlio, európio e itérbio. Ainda mais significativa foi uma cláusula extraterritorial: produtos fabricados em países terceiros que contivessem elementos de terras raras chineses ou fossem produzidos com tecnologia chinesa estariam sujeitos aos requisitos de licenciamento chineses para reexportação. As restrições seriam aplicadas assim que os produtos contivessem elementos de terras raras em uma concentração de apenas 0,1%. Uma proibição geral de exportação foi aplicada a produtos destinados ao uso militar.

O sinal era claro: Pequim estava usando seu poderio em matéria-prima como arma estratégica no conflito comercial com Washington, mas também como forma de pressionar a Europa. A MCC, empresa de comércio de produtos químicos sediada em Hamburgo, informou que, desde a implementação das restrições, nenhum grama de produtos químicos havia sido exportado da China, pois os parceiros chineses de longa data deixaram de receber autorizações. As linhas de produção da indústria automobilística europeia pararam; a Ford reduziu a produção de SUVs em Chicago. As empresas americanas previam que seus estoques se esgotariam em poucos meses.

A retirada parcial da China ocorreu sob pressão diplomática: como parte do acordo comercial EUA-China de 30 de outubro de 2025, firmado entre Trump e Xi Jinping, foi acordada uma suspensão de um ano dos controles de exportação de outubro, válida até 10 de novembro de 2026. No entanto, essas flexibilizações se aplicam apenas de forma muito limitada às empresas da UE – ou seja, somente se atuarem como fornecedoras de empresas americanas. Para todos os outros usos, a exigência de licenciamento individual permanece em vigor. Essa trégua diplomática não eliminou, de forma alguma, a dependência estrutural fundamental.

A aquisição do mercado mundial – Como os EUA e o Japão estão exacerbando a escassez

É precisamente aqui que entra a preocupante observação de Andreas Kroll, negociante de metais preciosos sediado em Berlim. Sua empresa, a Noble Elements, atua no comércio de metais pesados, metais preciosos e terras raras há doze anos. A consequência das restrições chinesas às exportações não é uma escassez uniforme, mas sim uma concentração direcionada do poder de compra: empresas americanas e japonesas, bem como iniciativas de compras coordenadas pelo Estado, estão sistematicamente adquirindo os estoques disponíveis fora da China.

Os Estados Unidos e o Japão assinaram um acordo formal em outubro de 2025, fortalecendo a exploração, o processamento e o fornecimento conjuntos de elementos de terras raras, com o objetivo declarado de garantir a robustez e a segurança das cadeias de suprimentos de minerais essenciais. O Japão tem décadas de experiência em diplomacia de recursos — o país foi submetido a um embargo de exportação de fato pela China em 2010, quando uma disputa territorial no Mar da China Oriental se intensificou. Desde então, Tóquio tem trabalhado continuamente em alternativas e tem sido mais proativo do que qualquer outra nação industrializada na busca por fontes não chinesas.

Para empresas europeias de médio porte como a Noble Elements, esse comportamento tem consequências desastrosas: o que está disponível no mercado global de terras raras fora da China é absorvido por programas significativamente mais lucrativos, apoiados pelo Estado. As pequenas e médias empresas (PMEs) ficam para trás. Kroll, cuja empresa almeja vendas anuais de € 100 milhões até 2026, vê, portanto, apenas uma saída: a transformação de comerciante em produtor. Projetos na Austrália, no Brasil e na África do Sul visam reduzir a dependência de seus clientes a longo prazo – mas esse caminho exige financiamentos na casa dos bilhões, que somente o setor financeiro pode administrar.

Explosão de preços como reação do mercado – os dados falam por si

Os efeitos das restrições à exportação e do comportamento de compra do Ocidente refletem-se diretamente nos preços. Desde o início de 2025, os preços dos óxidos de neodímio-praseodímio (NdPr) têm subido de forma constante, atingindo um patamar de cerca de US$ 107.970 por tonelada em fevereiro de 2026 – o nível mais alto desde o boom dos ímãs em 2022. Comparado ao final de 2025, quando o NdPr era negociado a cerca de 580.000 yuans por tonelada, isso representa um aumento de mais de 29% em apenas dois meses.

O aumento de preço foi particularmente drástico para os elementos de terras raras pesados, necessários para aplicações em altas temperaturas e ímãs de alto desempenho. O óxido de térbio atingiu cerca de US$ 4.028 por quilograma em meados de fevereiro de 2026 – um aumento de 103% desde o início do ano. O óxido de disprósio foi negociado entre US$ 930 e US$ 960 por quilograma, também um aumento de cerca de 105% em comparação com o início do ano. O ítrio, um elemento fundamental para supercondutores de alta temperatura e dispositivos médicos, subiu de US$ 260 por quilograma no final de dezembro de 2025 para US$ 425 em fevereiro de 2026. O neodímio estava sendo negociado a 992.500 yuans por tonelada no final de junho de 2026, um aumento anual de cerca de 80%.

O Índice de Preços de Terras Raras da China atingiu 288,7 em 10 de fevereiro de 2026 – um nível visto pela última vez no início de 2024 e significativamente acima da média anual de 2025. Prevê-se que o mercado de NdPr apresente um déficit de oferta pelo segundo ano consecutivo, com a demanda global projetada para crescer 7,7% em 2026. Seis aumentos consecutivos nos preços dos concentrados de terras raras desde janeiro de 2026 sustentam a tendência estrutural de alta. Essa dinâmica de preços não é um fenômeno especulativo de curto prazo, mas sim reflete um desequilíbrio fundamental entre a demanda e a oferta disponível fora do sistema chinês.

Alemanha e Europa em um aperto de pinça – Uma avaliação sóbria

Em 2024, a Alemanha importou aproximadamente 3.400 toneladas de elementos de terras raras da China, representando 65,5% do total das importações alemãs desse grupo de materiais. No ano anterior, esse número era de 69,1%, demonstrando que, embora existam esforços de diversificação, eles estão surtindo efeito lentamente. A situação é particularmente grave para certos elementos: neodímio, praseodímio e samário, essenciais para ímãs permanentes em motores elétricos, foram quase inteiramente importados da China em 2024.

Em uma comparação europeia, a Alemanha apresenta um desempenho particularmente ruim. Enquanto a quota média de importação da China para toda a UE gira em torno de 46%, 65,5% das importações alemãs vieram da República Popular da China. O segundo país de origem mais importante foi a Áustria, com uma participação de 23,2%, seguida pela Estônia, com 5,6% – ambos países onde as matérias-primas chinesas são processadas, o que obscurece, estatisticamente, a verdadeira origem. A dependência real é, portanto, ainda maior do que os números brutos sugerem.

Um estudo do Instituto de Inteligência da Cadeia de Suprimentos da Áustria (ASCII) chegou à conclusão alarmante de que a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos europeias aumentou significativamente desde 2007 e que mesmo pequenas tensões geopolíticas ou gargalos logísticos podem desencadear interrupções na produção. Para o setor de exportação alemão, 77 das 168 categorias de produtos examinadas que requerem elementos de terras raras são altamente relevantes – com um volume de exportação que constituiu uma parcela substancial das exportações industriais alemãs em 2023. A conclusão do diretor do ASCII, Peter Klimek, é inequívoca: sem investimentos direcionados em capacidades de processamento domésticas, parcerias estratégicas e diversificação de fornecedores, a Alemanha corre o risco de perder sua soberania tecnológica a longo prazo.

 

🎯🎯🎯 Fornecimento global e comércio de commodities com logística integrada

Matérias-primas, compras e comércio globais - Imagem: Xpert.Digital

Aviões de carga de última geração, rotas de transporte otimizadas e cadeias logísticas multimodais são intercambiáveis ​​— podem ser comprados, alugados ou terceirizados. O que o dinheiro não pode comprar são contatos diretos com produtores em minas peruanas, relações de fornecimento confiáveis ​​nos países da CEI e anos de confiança construída em mercados desconhecidos para estrangeiros. A vantagem competitiva decisiva no comércio global de commodities não reside no transporte da mercadoria do ponto A ao ponto B, mas em saber de onde ela vem, quem a produz e como obter acesso a ela antes mesmo que outros saibam que o mercado existe. Quem detém a rede define o preço. Todos os outros pagam.

Mais informações aqui:

 

Serra Verde & Cia.: Por que o Brasil está se tornando a chave para combater o monopólio da China

A resposta da Europa – Entre as ambições legislativas e os limites da realpolitik

A União Europeia reconheceu o problema e criou um quadro regulamentar com a Lei de Matérias-Primas Críticas (CRMA), que estabelece metas ambiciosas para 2030: pelo menos 10% das matérias-primas estratégicas devem ser extraídas internamente, pelo menos 40% processadas e pelo menos 25% recicladas. Nenhum país terceiro deve fornecer mais de 65% de qualquer categoria de matéria-prima estratégica. Esses parâmetros visam diretamente a dependência da China.

Em dezembro de 2025, a Comissão apresentou o Plano de Ação RESourceEU, que complementa a CRMA com mecanismos concretos de financiamento e implementação. Um total de 3 mil milhões de euros deverá ser mobilizado através de programas da UE, como o InvestEU, o Fundo de Inovação e o Battery Booster, até ao final de 2026. Um Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas irá coordenar as compras estratégicas, a monitorização do mercado e o armazenamento conjunto. Novas parcerias estratégicas — incluindo uma com o Brasil — visam impulsionar a diversificação da cadeia de abastecimento.

Contudo, o ceticismo em relação a esses planos é justificado. A Associação das Câmaras de Indústria e Comércio Alemãs (DIHK) alerta explicitamente contra a intervenção governamental em aquisições e armazenamento como último recurso, uma vez que o armazenamento organizado pelo Estado durante períodos de escassez poderia desencadear novas espirais de preços nos mercados de commodities. Cientistas do CSIS e de outros institutos de pesquisa enfatizam que a diversificação exige não apenas novas minas, mas também mão de obra qualificada, centros de processamento, fornecimento confiável de energia, infraestrutura eficiente e tecnologias avançadas de separação – um desenvolvimento que, segundo estimativas otimistas, levaria de dez a vinte anos. Nesse contexto, as metas da UE para 2030 parecem extremamente ambiciosas, mesmo para o observador mais compreensivo.

A Hora do Brasil – O Gigante Adormecido Desperta

!
Enquanto a Europa debate, outros países estão agindo. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras: aproximadamente 21 milhões de toneladas em equivalentes de óxidos de terras raras (REO), em comparação com 44 milhões de toneladas na China. Crucialmente, o país possui depósitos em reservatórios de adsorção iônica particularmente ricos em elementos de terras raras pesados, como disprósio e térbio – justamente os elementos dos quais o mundo ocidental mais depende da China e que atualmente estão sofrendo os aumentos de preços mais explosivos.

Apesar dessa situação geológica excepcional, o Brasil representou, durante muito tempo, menos de um por cento da produção global de terras raras. Isso mudou fundamentalmente com a entrada em operação da mina Pela Ema, no estado de Goiás, na região central do Brasil, pela empresa Serra Verde, no início de 2024. O depósito é único no mundo e representa a única fonte significativa fora da Ásia capaz de produzir quantidades substanciais de terras raras pesadas, como disprósio e térbio, em escala industrial. Espera-se que pelo menos 5.000 toneladas de óxidos mistos de terras raras sejam extraídas anualmente, com uma projeção de aumento para 6.500 toneladas até 2027.

A importância estratégica deste empreendimento é inegável. Serra Verde não é apenas um projeto de mineração – é um ponto de convergência geopolítica. O CEO Thras Moraitis anunciou planos para encurtar os contratos de fornecimento de longo prazo com clientes chineses, que expiram no final de 2026. A justificativa é simples: inicialmente, os clientes chineses foram escolhidos por falta de capacidade de processamento alternativa. Isso está mudando, pois plantas de separação fabricadas no Ocidente estarão disponíveis em poucos anos.

565 milhões de dólares como sinal político – A apropriação americana de Serra Verde

Em novembro de 2025, a Development Finance Corporation (DFC), estatal americana, investiu US$ 565 milhões em Serra Verde. O pacote de financiamento visava refinanciar empréstimos existentes em melhores condições e desenvolver ainda mais as instalações de produção no Brasil. Portanto, não se tratava apenas de uma transação comercial, mas de uma manobra geopolítica: os EUA estavam adquirindo acesso estratégico aos únicos depósitos significativos de elementos de terras raras pesadas fora da Ásia.

Uma empresa americana teria anunciado sua intenção de adquirir a Serra Verde por completo por US$ 28 bilhões, com o acordo de aquisição estipulando que os EUA receberão 100% da produção pelos próximos 15 anos – obtendo, assim, acesso direto aos quatro principais elementos magnéticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Este seria um passo histórico: o primeiro acesso completo de uma potência ocidental a uma instalação de produção de terras raras pesadas em funcionamento fora da esfera de influência da China.

Para os consumidores europeus, tal cenário seria preocupante. Significaria que a única fonte alternativa significativa de elementos de terras raras pesados ​​fora da China ficaria inteiramente sob controle americano – e a Europa, portanto, se tornaria dependente não apenas da China, mas também de uma nova dependência americana. A UE, por isso, manifestou interesse no Brasil e está preparando novas parcerias para o fornecimento de matérias-primas, que serão incorporadas ao Plano de Ação RESourceEU.

Para o próprio Brasil, a situação representa uma oportunidade histórica, mas também um ato de equilíbrio. O governo em Brasília não quer vincular o desenvolvimento de recursos de terras raras a alianças geopolíticas, mas sim à maximização da criação de valor interno. Isso significa que o Brasil não quer apenas exportar matérias-primas, mas também entrar no setor de processamento e fortalecer sua própria base industrial. Isso parece sensato, mas acarreta o risco de ficar no fogo cruzado entre as grandes potências, ambas em busca do acesso mais exclusivo possível aos depósitos brasileiros.

O Projeto Atlântico e a vanguarda especulativa da exploração

Além do já produtivo grupo Serra Verde, o setor de exploração inicial também está ganhando destaque. Empresas como a Atlantico Energy Metals Corp. (CSE: ATLA) estão se posicionando na expectativa de antecipar o próximo ciclo de terras raras no Brasil. Seu projeto principal, Novo Cruzeiro, na Província Pegmatítica do Leste de Minas Gerais, compreende 15 concessões de exploração contíguas, abrangendo 24.387 hectares. Resultados iniciais de sedimentos fluviais mostram enriquecimento de óxidos totais de terras raras (TREO), com valores médios de aproximadamente 421 ppm e máximo de 1.422 ppm, bem como óxidos magnéticos de terras raras (MREO), com valor máximo de 259,83 ppm.

É importante contextualizar esses resultados iniciais: os dados de sedimentos fluviais fornecem pistas para a geração de alvos, não dados que definam a viabilidade da mina. Não há recursos minerais confirmados nem um estudo de viabilidade econômica. O valor desses projetos em estágio inicial reside na arbitragem de tempo: aqueles que investem em uma categoria de commodities com demanda estrutural antes do mercado em geral podem obter retornos acima da média – mas também arcar com todo o risco da exploração. Para investidores industriais estratégicos que buscam segurança na cadeia de suprimentos a longo prazo, esses projetos em estágio inicial são menos adequados do que para capital especulativo.

Os limites estruturais da diversificação – Por que não existe uma solução rápida

Todo o debate em torno da redução da dependência das terras raras chinesas sofre de um mal-entendido fundamental: o objetivo principal não é construir minas, mas sim desenvolver capacidades de refino e separação. Os EUA possuem a única mina de terras raras ativa fora da Ásia em solo ocidental, Mountain Pass, na Califórnia – mas exportam o concentrado para a China para processamento, pois não possuem capacidade própria de refino. Isso é ainda mais verdadeiro para a Europa.

A liderança da China em tecnologia de processamento, particularmente na extração por solvente para a separação de elementos individuais, é praticamente insuperável após décadas de pesquisa financiada pelo Estado. Isso exige não apenas investimentos imensos, mas também pessoal altamente qualificado, engenharia química avançada, energia e água em quantidade suficiente e estruturas regulatórias que proporcionem aos investidores segurança no planejamento. Em países ocidentais com regulamentações ambientais rigorosas, tudo isso é significativamente mais caro e demorado do que na China.

O economista e especialista em China, Jost Wübbeke, da Sinolytics, resume sucintamente o problema fundamental: assim que os controles de exportação da China são flexibilizados, os preços e a oferta se estabilizam imediatamente – e, com eles, desaparece o incentivo econômico para construir instalações de processamento dispendiosas fora da China. Nada é mais devastador para uma refinaria ocidental do que um colapso de preços causado pela inundação do mercado chinês após investimentos bilionários em instalações. O domínio da China, portanto, se retroalimenta: a mera ameaça de restrições à exportação é suficiente para interromper os ciclos de investimento fora de seu próprio sistema.

Conclusões estratégicas – O que é necessário agora

Uma análise sóbria da situação do mercado em 2026 revela imperativos estratégicos claros. Em primeiro lugar, a questão do financiamento é crucial: os bilhões necessários para minas, refinarias e plantas de separação devem ser mobilizados de forma rápida e confiável. O Estado sozinho não consegue gerir isso – o setor financeiro deve intervir com instrumentos de longo prazo. É precisamente isso que Kroll, da Noble Elements, também enfatiza como um pré-requisito fundamental para quebrar o poder de mercado da China.

Em segundo lugar, as capacidades de reciclagem devem ser ampliadas massivamente. Os ímãs permanentes de carros elétricos, turbinas eólicas e resíduos eletrônicos contêm quantidades significativas de elementos de terras raras, que atualmente são em grande parte desperdiçados. Uma economia circular funcional para esses elementos reduziria estrutural e sustentávelmente a dependência de importações – e é tecnologicamente muito mais rápida de implementar do que novos projetos de mineração.

Em terceiro lugar, o exemplo do Brasil mostra que a diversificação geográfica pode funcionar, mas requer uma estratégia ocidental coerente. Se os EUA garantirem acesso exclusivo à Serra Verde, pouco contribuirão para ajudar a Europa. A UE precisa de suas próprias parcerias, seus próprios instrumentos de financiamento e uma garantia de compra credível a longo prazo para tornar os produtores não chineses alternativas atrativas. O Plano de Ação RESourceEU é um passo na direção certa, mas chega tarde e sua velocidade de implementação ainda não acompanha a realidade geopolítica.

Em quarto lugar, a Alemanha precisa de sua própria diplomacia de matérias-primas que se estenda além do âmbito da UE. O governo alemão deve aproveitar o investimento americano da DFC no Brasil para estabelecer sua própria presença e forjar parcerias – não apenas para terras raras, mas para todo o espectro de minerais críticos necessários para a transição energética, a digitalização e as capacidades de defesa. A viagem do chanceler Friedrich Merz à China em fevereiro de 2026 foi um sinal necessário, mas insuficiente como resposta a uma crise estrutural de abastecimento.

Conclusão – Uma matéria-prima que está renegociando a ordem mundial

As terras raras deixaram de ser um tema de nicho para mineralogistas e engenheiros de mineração. Tornaram-se um campo central no realinhamento geopolítico da economia global. A capacidade de exportação da China funciona precisamente porque décadas de passividade ocidental criaram uma dependência estrutural que não pode ser resolvida a curto prazo. As reações de Washington e Tóquio — aquisições agressivas, investimentos estatais no Brasil, acordos bilaterais de fornecimento — são racionais, mas agravam a situação para potências médias como a Alemanha.

O Brasil possui os pré-requisitos geográficos para se tornar um contrapeso significativo ao poder de mercado chinês. Se isso acontecerá ou não, depende não apenas de mineradoras como a Serra Verde, mas também de decisões políticas relativas à integração da cadeia de valor, estruturas de propriedade e parcerias estratégicas. As explosões de preços de 2025 e 2026 enviam um sinal inequívoco ao mercado: o mercado valoriza a segurança de abastecimento fora da China com um prêmio significativo – e esse prêmio persistirá enquanto as causas estruturais dessa dependência permanecerem.

 

Seu contato para matérias-primas ⛏️ Fornecimento global 🚢🌐 e comércio 📦

Dmitry Kovalenko

Terei o maior prazer em atuar como seu consultor pessoal.

Dmitry Kovalenko

Telefone: +49 7348 4088 961

LinkedIn

 

 

 

Seu contato para matérias-primas ⛏️ Fornecimento global 🚢🌐 e comércio 📦

Konrad Wolfenstein

Terei o maior prazer em atuar como seu consultor pessoal.

Konrad Wolfenstein

E-mail: wolfenstein@xpert.Digital

LinkedIn

 

 

 

Nossa experiência global nos setores industrial e econômico em desenvolvimento de negócios, vendas e marketing

Nossa experiência global nos setores industrial e econômico em desenvolvimento de negócios, vendas e marketing - Imagem: Xpert.Digital

Áreas de atuação: B2B, digitalização (de IA a XR), engenharia mecânica, logística, energias renováveis ​​e indústria

Mais informações aqui:

Um centro temático que oferece informações e conhecimento especializado:

  • Plataforma de conhecimento que abrange economias globais e regionais, inovação e tendências específicas do setor
  • Uma coletânea de análises, insights e informações contextuais sobre nossas principais áreas de atuação
  • Um espaço para conhecimento especializado e informações sobre os desenvolvimentos atuais em negócios e tecnologia
  • Um centro para empresas que buscam informações sobre mercados, digitalização e inovações do setor
Sair da versão para celular