O preço dos dois pesos e duas medidas: como a política externa alemã desperdiçou o apoio mundial
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Publicado em: 5 de junho de 2026 / Atualizado em: 5 de junho de 2026 – Autor: Konrad Wolfenstein

O preço dos dois pesos e duas medidas: como a política externa alemã desperdiçou o apoio global – Imagem: Xpert.Digital
Pagador sem voz: O que a expulsão do palco da ONU revela sobre o estado da Alemanha
Perda de poder dos "chancelers estrangeiros": Por que o Sul Global se afastou da Alemanha
O legado de Baerbock e os erros de Merz: as verdadeiras razões para o constrangimento da Alemanha no Conselho de Segurança
Em 4 de junho de 2026, a política externa alemã sofreu um revés histórico: pela primeira vez, a República Federal da Alemanha não conseguiu garantir uma vaga não permanente no Conselho de Segurança da ONU. Apesar de bilhões em contribuições, as Nações Unidas se recusaram a apoiar a Alemanha, favorecendo Portugal e a Áustria. Mas o fiasco de Nova York não surgiu do nada. É o duro acerto de contas por anos de inconsistências na política externa, uma hipocrisia percebida no Sul Global e gafes diplomáticas que vão de Annalena Baerbock ao chanceler Friedrich Merz. Esta é uma análise aprofundada de por que a Alemanha foi reduzida de pioneira da ordem mundial baseada em regras a uma financiadora isolada – e por que a regra inabalável da diplomacia internacional é: bilhões em ajuda não compram poder político.
O desastre da Alemanha na ONU: Contribuintes sem voz
Quando as transferências bancárias não compram votos – e por que isso não deveria surpreender ninguém
Em 4 de junho de 2026, a República Federal da Alemanha sofreu uma derrota diplomática sem precedentes em sua história como membro da ONU. Na votação da Assembleia Geral da ONU em Nova York, a Alemanha não conseguiu, pela primeira vez, garantir uma vaga não permanente no Conselho de Segurança. Portugal recebeu 134 votos, a Áustria 131 e a Alemanha apenas 104 dos 190 votos válidos. Eram necessários 127 votos, ou seja, uma maioria de dois terços. O resultado não é apenas um sinal político, mas o reflexo de uma crise mais profunda na política externa alemã – uma crise que vem se agravando há anos sob diversos governos e que tem causas que vão muito além do fracasso de um único indivíduo ou partido.
O choque em Nova York: o que exatamente aconteceu?
A candidatura da Alemanha a uma vaga não permanente no Conselho de Segurança da ONU para 2027 e 2028 era considerada certa. Dentro do Grupo de Países da Europa Ocidental e Outros (WEOG), três países disputavam duas vagas – uma situação que tornava inevitável uma votação contestada. Nas semanas que antecederam a votação, o Ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, fez uma intensa campanha em busca de apoio alemão, chegando a realizar uma extensa viagem diplomática. Seu slogan de campanha era: "Respeito – Justiça – Paz". Tudo em vão.
O resultado da votação foi devastador, não apenas pela quantidade de votos, mas também pela margem da derrota. A Alemanha ficou a 23 votos do limite necessário e perdeu simultaneamente para ambos os seus rivais. Imediatamente após a votação, Wadephul falou de uma "derrota amarga" e chegou a admitir que havia considerado brevemente a possibilidade de renunciar. O fato de ter permanecido no cargo após essa breve hesitação não altera o fato de que a República Federal sofreu uma humilhação de repercussão internacional naquele dia.
Para o chanceler Friedrich Merz, que desde que assumiu o cargo gosta de se apresentar como um "chanceler estrangeiro" e sonha em discutir assuntos em pé de igualdade com os chefes de governo das potências mundiais no Conselho de Segurança, este é um revés de considerável peso simbólico. Ainda mais irônico: o próprio Merz se ausentou da Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025 porque a semana do orçamento no Bundestag lhe pareceu mais importante. Isso certamente foi notado nos círculos diplomáticos – e interpretado como um indício da seriedade com que a Alemanha encara seu compromisso com a ONU.
Números e realidade: o que a Alemanha oferece – e o que não recebe
Para entender o desastre de Nova York, é preciso primeiro compreender a dimensão financeira. A Alemanha é um dos maiores financiadores de todo o sistema das Nações Unidas. As contribuições alemãs em 2023 totalizaram quase € 5,1 bilhões, após aproximadamente € 6,8 bilhões em 2022. Isso faz da Alemanha o segundo maior contribuinte para a ONU, logo depois dos EUA. A Alemanha contribui com 5,69% do orçamento regular da ONU – o equivalente a cerca de US$ 195 milhões para o ano fiscal de 2025. Além disso, a Alemanha financiou o destacamento da Bundeswehr no âmbito das missões de paz da ONU em 2022 e 2023 com um total de aproximadamente € 874,5 milhões.
Esses números são impressionantes. Mas também explicam o verdadeiro problema: na Alemanha – e em partes do establishment político – instalou-se um mal-entendido fundamental. Há uma crença de que as contribuições financeiras geram automaticamente influência política. Esse erro de cálculo é punido com particular severidade no sistema das Nações Unidas. A Assembleia Geral da ONU opera com base no princípio de "um Estado, um voto" – independentemente de o país em questão contribuir com bilhões ou quase nada. A nação insular de Tuvalu, com seus aproximadamente 11.000 habitantes, tem os mesmos direitos de voto que a República Federal da Alemanha, com seus 84 milhões de habitantes e a maior economia da Europa.
O poder na política internacional surge do alinhamento de interesses, alianças estratégicas, força econômica e militar e posições consistentes e credíveis – não de meros pagamentos. Essa é a lógica inabalável do sistema internacional, que a Alemanha, sob diversos governos, aparentemente não internalizou suficientemente. O fato de Manfred Pentz, Ministro de Estado para Assuntos Internacionais de Hesse, ser agora o primeiro representante de um Estado a questionar publicamente os pagamentos da ONU demonstra como a reação na Alemanha se baseia nesse mal-entendido: aqueles que pagam e não recebem influência se sentem enganados – e ameaçam suspender os pagamentos. Isso é compreensível do ponto de vista político interno, mas estrategicamente contraproducente.
A crise estrutural: sinais contraditórios ao longo dos anos
A derrota em Nova Iorque não é resultado de um único erro, mas sim da soma de vários deslizes acumulados ao longo dos anos. A conclusão crucial é que a Alemanha adquiriu na comunidade internacional a reputação de ator inconsistente e contraditório – um país que por vezes se apresenta como o supremo defensor do direito internacional e outras vezes fecha os olhos por razões táticas.
O padrão está bem documentado. Durante a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, a Alemanha adotou uma posição rápida e clara – mesmo a um custo econômico considerável, ao pôr fim à sua dependência energética da Rússia. Isso enviou um sinal consistente de uma política externa baseada em valores. Em contraste, a Alemanha agiu com hesitação durante a guerra em Gaza. Baseada em sua responsabilidade histórica para com Israel, como uma questão de interesse nacional, a República Federal teve dificuldade em reconhecer claramente a catástrofe humanitária na Faixa de Gaza e em descrever a guerra israelense como aquilo que especialistas jurídicos internacionais e órgãos da ONU reconheceram: uma violação do direito internacional humanitário. A evidente dissonância entre o compromisso da Alemanha com uma política externa baseada em valores e seu apoio a Israel, apesar dos graves crimes de guerra, prejudicou severamente a reputação da Alemanha no Sul Global.
Nos países árabes, a reputação da Alemanha despencou para o nível mais baixo em décadas – apenas nove por cento da população agora tem uma visão positiva da República Federal. Sindicatos estão suspendendo a cooperação com fundações alemãs, organizações de direitos humanos estão rompendo relações de longa data e acadêmicas estão enfrentando rejeição. Imagens de armas alemãs sendo usadas em Gaza e da violenta repressão de manifestações pró-Palestina circulam pelo mundo. Essa dinâmica atinge a Alemanha em uma área na qual ela se considerava particularmente forte: como autoridade moral e parceira confiável do Sul Global.
O legado de Baerbock: Preocupações preliminares
Um fator crucial para a derrota da Alemanha na ONU já estava estabelecido de antemão, e seu nome é Annalena Baerbock. A ex-ministra das Relações Exteriores alemã causou considerável irritação dentro do sistema da ONU por meio de suas ações em assuntos pessoais. Desde 2015, o grupo WEOG havia decidido que a Alemanha deveria assumir a presidência da Assembleia Geral da ONU na sessão de 2025/26. A experiente diplomata Helga Schmid – uma figura internacional altamente respeitada – havia sido designada como candidata desde setembro de 2024.
Apenas algumas semanas após o fim da coligação do semáforo, o cenário mudou abruptamente. Baerbock, que acabara de perder o cargo de ministra das Relações Exteriores e que inicialmente declarara sua intenção de fazer uma pausa após "anos em alta velocidade", repentinamente demonstrou interesse pelo cargo mais importante de Nova York. Contrariando todos os acordos existentes, o governo federal cessante impôs Baerbock como sua candidata – Helga Schmid teria ficado sabendo disso apenas no último minuto. O gabinete aprovou a nomeação de Baerbock por meio de um procedimento escrito.
Nos círculos diplomáticos das Nações Unidas, essa remodelação foi observada com grande interesse. As questões que surgiram foram incômodas: os alemães veem a ONU como um palco para jogos de poder nacionais e posições de clientelismo? Os acordos com Berlim podem ser honrados de forma confiável? A deputada Tijen Ataoğlu, da CDU, resumiu a situação perfeitamente ao explicar que muitos países não percebem mais a Alemanha como uma nação líder e influente, mas sim como um ator incerto e frequentemente contraditório. Essa percepção foi consolidada, e não refutada, pela nomeação de Baerbock.
Não que as qualificações de Baerbock fossem fundamentalmente indiscutíveis. Ela possui experiência em negociações internacionais, e o governo alemão defendeu sua nomeação. Mas, no fim das contas, não se tratava de qualificações. Tratava-se do sinal que a medida enviava: um país que quebra acordos internos, muda posições previamente acordadas por interesses político-partidários ou de carreira, e ao fazê-lo ofende uma diplomata de alto escalão, não parece confiável perante a comunidade internacional. E a confiabilidade é o princípio fundamental da diplomacia multilateral.
A Síndrome de Gaza: Quando o interesse nacional se torna um problema para a política externa
Nenhuma outra questão prejudicou tanto a reputação internacional da Alemanha nos últimos anos quanto sua posição na guerra de Gaza. A razão de Estado alemã — o compromisso com a segurança de Israel como parte da identidade alemã após o Holocausto — é um pilar moral do Estado alemão. No entanto, na prática, desde 7 de outubro de 2023, isso se tornou um problema de política externa.
Embora a Alemanha tenha claramente se posicionado a favor do direito internacional no ataque da Rússia à Ucrânia, o governo alemão evitou tomar uma posição clara sobre o conflito em Gaza. O Ministro das Relações Exteriores, Wadephul, havia salientado na rádio Deutschlandfunk, antes da votação na ONU, que havia "outras considerações – nossas alianças, nossos interesses econômicos, nossos interesses de política de segurança" que precisavam ser levadas em conta. Isso é diplomaticamente honesto, mas revela um duplo padrão: para a Alemanha, o princípio do direito internacional aparentemente não se aplica de forma absoluta, mas sim contextual. Aplica-se quando lhes convém e é deixado de lado quando se torna inconveniente.
Essa aplicação seletiva do direito internacional gerou profunda desconfiança no Sul Global – onde se concentra a maioria das votações na Assembleia Geral da ONU. Uma pesquisa representativa realizada na própria Alemanha, em agosto de 2025, mostrou que 65% dos entrevistados acreditavam que o exército israelense estava cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza; 59% consideravam suas ações genocídio contra a população palestina. Apenas 10% apoiavam integralmente a afirmação de que a segurança de Israel deveria ser um interesse nacional alemão. A política externa alemã sob o governo de coalizão anterior – e, em grande medida, também sob o anterior a ele – distanciou-se, portanto, não apenas da opinião majoritária mundial, mas também da opinião majoritária interna.
Isso tem consequências diplomáticas reais. A Rússia – que está ativamente trabalhando contra a influência alemã nas Nações Unidas – conseguiu mobilizar um grande número de países menores que têm os mesmos direitos de voto que a França ou os EUA. Países do Sul Global, que não se sentiram representados pela posição alemã, se abstiveram ou votaram contra a Alemanha. O especialista em política externa do SPD, Adis Ahmetovic, foi direto ao ponto: Quem se diz guardião da ordem internacional baseada em regras não pode aplicar dois pesos e duas medidas ao direito internacional.
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Há outra dimensão estrutural da derrota que não deve ser negligenciada: a força econômica e política relativa da Alemanha diminuiu consideravelmente nos últimos anos. A participação da Alemanha no PIB global caiu de 4,2% para 3,27% entre 2004 e 2022; sua participação na população caiu de 1,34% para 1,08%. A fragilidade econômica dos anos da coalizão do "semáforo", a crise dos preços da energia, a recessão industrial e a crescente paralisia em Berlim prejudicaram a imagem da Alemanha no exterior — não apenas no Sul Global, mas também na Europa.
Ao mesmo tempo, a competição por reconhecimento internacional se intensificou. Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita e muitas outras economias emergentes reivindicam maior peso em organismos internacionais — e possuem fortes argumentos demográficos e econômicos para sustentar essa reivindicação. A Índia pode apontar para uma participação de 7,2% da produção econômica global e 18,3% da população mundial; o Brasil, para 2,35% da produção econômica e 2,8% da população mundial. Nesse contexto, a reivindicação contínua da Alemanha a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU parece não apenas mal justificada, mas francamente anacrônica.
Ao mesmo tempo, a Europa já tem dois membros permanentes no Conselho de Segurança: França e Reino Unido. Adicionar um terceiro país europeu — especialmente um com influência global decrescente — a este grupo dificilmente se justifica da perspectiva da maioria da ONU. A Alemanha deveria, na verdade, defender uma reforma fundamental do Conselho de Segurança que leve em consideração as novas realidades geopolíticas — e abrir mão de um assento próprio em favor de um possível assento conjunto europeu. Isso seria politicamente corajoso, estrategicamente coerente e consolidaria a Alemanha como uma força influente. Em vez disso, a República Federal da Alemanha segue o mesmo mantra há décadas: pagar dezenas de bilhões de euros e esperar por um assento próprio.
Reações: Entre pensamentos de demissão e recusa em pagar
As reações políticas internas ao fiasco de Nova York são indicativas do estado da política externa alemã. Wadephul admitiu ter considerado as consequências pessoais – e permaneceu no cargo. Merz garantiu a todos que as responsabilidades do governo alemão na ONU não mudariam em decorrência da eleição. Essa declaração tem pouco peso, visto que a Alemanha não era membro não permanente.
Apelos por uma postura mais firme em relação ao direito internacional partiram das próprias fileiras do SPD. A vice-presidente do grupo parlamentar do SPD, Siemtje Möller, enfatizou que o compromisso da Alemanha como parceira confiável para a ordem internacional baseada em regras precisa ser ainda mais claro e consistente. Embora isso esteja correto em princípio, ocorre em um momento em que o dano já está feito. O líder do AfD, Weidel, considerou o ocorrido mais um constrangimento para a Chanceler, que a beneficia politicamente, mas não contribui em nada para uma solução estratégica. O líder do Partido Verde, Brantner, descreveu o resultado como consequência de uma política externa que perdeu credibilidade e confiança internacionalmente.
A reação mais interessante veio de Hesse: o Ministro de Estado Manfred Pentz foi o primeiro representante de um estado alemão a questionar publicamente os pagamentos da Alemanha à ONU. Seu argumento — por que uma das maiores economias do mundo deveria continuar investindo tanto dinheiro na ONU se não tem a influência que merece — ressoa com o senso de justiça intuitivo de muitos cidadãos. No entanto, de uma perspectiva estratégica, é uma visão de curto prazo. A suspensão dos pagamentos marginalizaria ainda mais a importância da Alemanha dentro do sistema da ONU, permitiria que outros países, como a China, preenchessem o vácuo resultante e arruinaria definitivamente a reputação da Alemanha como um parceiro multilateral confiável.
Em Nova Iorque, este debate está sendo acompanhado de perto. A pergunta que se coloca lá é: os alemães veem as suas quotas de membro como uma compra de influência? Se assim for, ficarão desapontados, porque a influência nas Nações Unidas não se conquista através de pagamentos, mas sim através da persuasão política, da construção de alianças sólidas e de ações consistentes.
A contradição estrutural: defensores de normas sem consistência normativa
O principal problema da política externa alemã pode ser resumido em uma fórmula: a Alemanha quer ser a guardiã da ordem internacional baseada em regras, mas só aplica essas regras quando lhe convém. Essa contradição não pode ser atribuída exclusivamente a um partido ou governo. Ela permeia tanto a política externa da coalizão governista liderada por Baerbock quanto a da atual coalizão governista-alemã liderada por Merz.
A posição em relação a Gaza é apenas o exemplo mais notório disso. O chanceler Merz também hesitou inicialmente em comentar os ataques dos EUA à Venezuela e ao Irã – claramente dentro do contexto de uma estratégia para apaziguar o governo Trump. No entanto, qualquer pessoa que afirme defender o direito internacional enquanto permanece em silêncio sobre as ações de potências aliadas corre o risco de perder credibilidade perante a comunidade internacional. Isso é especialmente verdadeiro para os países que dependem fortemente do direito internacional por não possuírem os recursos militares ou econômicos necessários.
Essa dupla moral estrutural é o verdadeiro desastre por trás do desastre. Não se trata dos 23 votos desaparecidos em Nova York. Trata-se de uma questão fundamental de identidade para a política externa alemã: a Alemanha quer ser um Estado de princípios que defende consistentemente seus valores, mesmo que isso tenha um preço alto? Ou é um Estado guiado por interesses que ajusta sua posição de acordo com a situação tática? Ambas as posições são legítimas – mas não se pode querer ser conhecido por ambas simultaneamente. Uma posição clara pode convencer outros Estados. A ambiguidade, não.
O que precisa ser feito agora: Entre credibilidade e realpolitik
A derrota em Nova Iorque também representa uma oportunidade, caso a Alemanha a interprete corretamente. A próxima chance de conquistar uma vaga não permanente geralmente surge daqui a oito anos. O tempo até lá poderia ser usado com sabedoria – desde que a classe política esteja preparada para enfrentar as consequências desagradáveis.
Em primeiro lugar, a Alemanha precisa simplificar sua política externa. Isso não significa abandonar todos os seus interesses – nenhum país faz isso. Significa, porém, que os desvios dos princípios do direito internacional não sejam envoltos em silêncio, mas sim explicados de forma transparente. Os países que não nutrem boas relações com a Alemanha poderão, então, ao menos compreender sua posição – um pré-requisito para qualquer negociação diplomática.
Em segundo lugar, a Alemanha deveria impulsionar ativa e seriamente a reforma do Conselho de Segurança da ONU, sem visar primordialmente um assento próprio. Um assento conjunto europeu, negociado com os demais parceiros da UE, seria mais credível e geopoliticamente relevante do que um assento nacional. A Alemanha poderia posicionar-se como um mediador imparcial e uma força motriz para a reforma – essa seria uma contribuição genuína para um sistema multilateral que necessita urgentemente de renovação.
Em terceiro lugar, o debate interno sobre as contribuições para a ONU deve ser despolitizado. A exigência de cortes nas contribuições é populista, mas estrategicamente perigosa. A Alemanha paga não apenas por influência, mas também por uma estrutura internacional da qual uma potência econômica voltada para a exportação como a República Federal se beneficia enormemente. Reduzir essas contribuições geraria apoio a curto prazo, mas, a longo prazo, causaria sérios danos – em um mundo onde o multilateralismo já está sob considerável pressão.
O padrão por trás da derrota
A votação de 4 de junho de 2026 é mais do que um revés diplomático. É o resultado visível de um longo processo no qual a Alemanha investiu mais dinheiro no sistema internacional do que capital estratégico. Nos últimos anos, a República Federal não se destacou como uma potência formadora de opinião, mas meramente como pagadora – disposta a liquidar as contas, mas nem sempre disposta a pagar o preço político que a influência real exige.
Annalena Baerbock contribuiu para esse desenvolvimento, mas não é a única responsável nem a principal causa. As razões estruturais – a aplicação seletiva do direito internacional, a erosão da reputação da Alemanha no Sul Global, as manobras táticas no trato com o governo Trump, os atritos diplomáticos causados pelo caso Schmid, a ausência da Chanceler no cenário da ONU – são o resultado de erros coletivos de política externa em diversos governos.
A pergunta incômoda que a Alemanha precisa responder agora não é: Por que ninguém votou em nós? É: O que realmente queremos ser no mundo? Enquanto essa pergunta não for respondida honestamente, bilhões a mais fluirão para Nova York – e a Alemanha continuará a observar a política mundial à margem.
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