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Brasil em transição: poder econômico, parceiros industriais e o acordo do Mercosul

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Publicado em: 8 de maio de 2026 / Atualizado em: 8 de maio de 2026 – Autor: Konrad Wolfenstein

Brasil em transição: poder econômico, parceiros industriais e o acordo do Mercosul

Brasil em transição: poder econômico, parceiros industriais e o acordo Mercosul – Imagem: Xpert.Digital

Entre a política de juros elevados e a diplomacia comercial – Por que a Europa deve agora concentrar-se no Brasil?

Oportunidades bilionárias em engenharia mecânica: por que o Brasil está se tornando o parceiro mais importante?

O Brasil está no centro de um realinhamento geopolítico e econômico. Como a maior economia da América Latina, o país possui vastos recursos naturais, uma base energética verde bem desenvolvida e uma ambiciosa política industrial estatal. Ao mesmo tempo, o gigante sul-americano enfrenta um ambiente paradoxal: altas taxas de juros e uma burocracia notória ainda atuam como obstáculos estruturais. Mas o cenário global está mudando rapidamente. Com a entrada em vigor provisória do acordo UE-Mercosul, está sendo criada a maior zona de livre comércio do mundo. Diante do crescente protecionismo dos EUA e do domínio da China em recursos críticos, o Brasil emerge repentinamente como um parceiro estratégico indispensável para a Europa. Para a indústria alemã, particularmente a engenharia mecânica e o setor B2B, um mercado de 770 milhões de habitantes está se abrindo, um mercado que tem muito mais a oferecer do que apenas produtos agrícolas. A análise a seguir lança luz sobre a realidade econômica do Brasil em meio a profundas reformas estruturais, transformação digital e novas oportunidades de política comercial – e mostra por que uma postura de esperar para ver é a estratégia errada para as empresas europeias neste momento.

A economia brasileira hoje: um gigante com limitações estruturais

O Brasil é a maior economia da América Latina e, com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,179 trilhões em 2024, figura entre as dez maiores economias do mundo. Com 216 milhões de habitantes, vastas reservas de recursos naturais e uma estrutura industrial diversificada, o país possui um peso que tem sido subestimado na Europa. No entanto, os pontos fortes do Brasil contrastam curiosamente com as fragilidades estruturais que têm impedido o pleno potencial do país por décadas.

O crescimento do PIB brasileiro em 2025 ficou entre 2,2% e 2,5% – respeitável, mas não espetacular. No quarto trimestre de 2025, o crescimento trimestral sequencial caiu para apenas 0,1%, um sinal de que a economia esfriou significativamente no final do ano. Para 2026, os economistas esperam uma desaceleração ainda maior, em torno de 1,6% a 2,4%, dependendo do modelo. O principal obstáculo é, sem surpresas, a política monetária. Desde setembro de 2024, o Banco Central do Brasil elevou sua principal taxa de juros, a Selic, em várias etapas, para entre 14,50% e 15% – o nível mais alto em 20 anos. Essa drástica alta da taxa de juros foi a resposta à inflação persistente, que acabou fechando em 4,26% em 2025, dentro da meta oficial de 4,5% – uma surpresa positiva em comparação com as previsões mais pessimistas do Banco Central de julho de 2025.

Os efeitos das altas taxas de juros são palpáveis ​​no cotidiano da economia brasileira: investimentos estão sendo adiados, o consumo está em baixa e o crédito para empresas permanece caro. Ainda assim, a economia demonstra resiliência. O agronegócio, pilar das exportações brasileiras, cresceu cerca de 8% em 2025, graças a safras recordes e ao aumento das exportações para a China e novos mercados. O setor de serviços e o consumo privado também contribuíram para a estabilização. A economia brasileira, portanto, não é uma história de fracasso nem de crescimento desenfreado. Pelo contrário, é o retrato de um gigante cujo galope está sendo freado por restrições estruturais autoimpostas.

O paradoxo estrutural: riqueza em recursos naturais versus densidade burocrática

Poucos países no mundo combinam características tão contrastantes quanto o Brasil. Por um lado, possui a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras, estimada em 21 milhões de toneladas, é o maior fornecedor mundial de nióbio e está se tornando um importante produtor de lítio, níquel, grafite e cobalto. A associação brasileira de mineração Ibram, por si só, prevê investimentos superiores a US$ 18 bilhões nesse setor até 2030. Dada a crescente importância de matérias-primas críticas para a transição energética e as indústrias de alta tecnologia da Europa, essa base de recursos é de importância estratégica.

Por outro lado, o sistema tributário e o ambiente regulatório brasileiros têm sido considerados grandes barreiras ao investimento há décadas. As empresas brasileiras gastam, em média, 1.501 horas por ano cumprindo suas obrigações tributárias – o maior número entre as economias equivalentes da OCDE. Esse chamado "Custo Brasil" – os custos adicionais específicos de se fazer negócios no Brasil – engloba não apenas a carga tributária, mas também infraestrutura ineficiente, riscos de corrupção e um sistema judiciário burocrático. Uma reforma tributária abrangente foi aprovada em 16 de janeiro de 2025, por meio da Lei Complementar nº 214/2025. Ela substitui a fragmentação anterior dos impostos indiretos (PIS, COFINS, IPI, ICMS, ISS) por um sistema de imposto sobre valor agregado dual, com dois novos impostos (CBS e IBS), além de uma tributação seletiva. A reforma está sendo implementada gradualmente entre 2026 e 2033. Para os investidores estrangeiros, isso significa maior complexidade de conformidade no curto prazo, mas um sistema tributário mais transparente e previsível no longo prazo.

Outra vantagem estrutural é a matriz energética do Brasil. O país é líder mundial em energias renováveis, gerando cerca de 83% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, principalmente hidrelétrica, eólica e solar. Isso confere às instalações de produção brasileiras uma pegada de carbono que representa um argumento atraente para empresas europeias com metas de descarbonização. O Brasil, portanto, não é apenas um local de produção economicamente viável, mas também potencialmente "verde" — um aspecto que vem ganhando relevância significativa em um mundo com mecanismos de ajuste de carbono na fronteira (CBAM).

Engenharia mecânica como núcleo: figuras, estruturas e raízes alemãs

A engenharia mecânica brasileira é muito mais significativa do que a imagem pública do Brasil como nação agrícola sugere. Com vendas globais de máquinas de € 51 bilhões em 2024, o Brasil ocupou a 11ª posição na produção mundial de máquinas. Não se trata de um ator marginal, mas sim de um ator importante com uma ampla base industrial. Os pilares desse setor são máquinas agrícolas, processamento de metais, máquinas para processamento de alimentos, equipamentos para movimentação de materiais e tecnologia de acionamento.

Para a Alemanha, o Brasil é o mercado sul-americano mais importante para suas máquinas – e o único parceiro estratégico da Alemanha em todo o continente latino-americano. Em 2025, as exportações alemãs de máquinas para o Brasil atingiram € 2,73 bilhões, um aumento de 1,1% em relação ao ano anterior. Isso colocou o Brasil na 19ª posição no ranking de exportações alemãs – um resultado respeitável, mas que ainda apresenta considerável potencial de crescimento. Tecnologias de acionamento, máquinas para processamento e embalagem de alimentos, tecnologias de transporte e tecnologias de fluidos são particularmente demandadas. Essas categorias de produtos estão perfeitamente alinhadas com as prioridades de investimento delineadas na política industrial brasileira para os próximos anos.

Mais de 100 empresas alemãs de engenharia mecânica operam suas próprias unidades de produção no Brasil, a maioria delas no estado de São Paulo. Lá, elas não são apenas exportadoras, mas também produtoras locais, empregadoras e parceiras em transferência de tecnologia. Empresas como a Liebherr fortaleceram sua presença em 2025 com um novo centro de pesquisa e produção em Guaratinguetá (São Paulo), onde são desenvolvidos componentes complexos para a indústria aeroespacial global. No setor de tecnologia agrícola, Stihl, Horsch, Fendt, Amazone e a joint venture Bosch/BASF, One Smart Spray, estão investindo ativamente no mercado brasileiro. O comércio bilateral entre Alemanha e Brasil atingiu recentemente cerca de 21 a 22 bilhões de euros, tornando a Alemanha o maior parceiro comercial europeu do Brasil.

Nova Indústria Brasil: A política industrial estatal como motor de crescimento

O governo brasileiro, sob a presidência de Lula da Silva, lançou uma ambiciosa estratégia de reindustrialização chamada "Nova Indústria Brasil" (NIB), com duração até 2033. Este programa é mais do que apenas palavras: 300 bilhões de reais – aproximadamente 56 bilhões de euros – serão disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o período de 2024 a 2026. O programa concentra-se em seis missões estratégicas: agricultura e soberania alimentar, saúde, mobilidade e logística sustentáveis, indústrias digitais e verdes, bioeconomia e defesa e espaço.

No setor agrícola, o programa estabelece metas ambiciosas: até 2030, o nível de mecanização nas propriedades rurais familiares deverá aumentar dos atuais 18% para 70%, e 95% das máquinas necessárias deverão ser produzidas no Brasil. Isso tem consequências diretas para o setor de engenharia mecânica – tanto para os produtores nacionais quanto para os investidores estrangeiros que desejam instalar unidades de produção no Brasil. Para a digitalização e a Indústria 4.0, foi criada, em 2025, uma linha de crédito equivalente a € 2 bilhões para máquinas, robótica, inteligência artificial e IoT. O Plano Nacional de Inteligência Artificial (PNIA 2024-2028) prevê investimentos de € 3,6 bilhões e posiciona o Brasil como referência global em supercomputação e IA.

Essa política industrial liderada pelo Estado não está isenta de ambivalências. Por um lado, cria demanda confiável, canaliza capital e envia sinais claros de investimento. Por outro lado, uma política econômica fortemente dirigida pelo Estado acarreta o risco de investimentos equivocados, dependência de ciclos políticos e subsídios que distorcem o mercado. A história econômica brasileira oferece inúmeros exemplos de políticas industriais que pareciam boas no papel, mas que, na realidade, consolidaram estruturas ineficientes. Contudo, dada a profundidade da desindustrialização que o Brasil vivenciou nas últimas três décadas, um papel ativo do Estado não é apenas politicamente justificável, mas também economicamente necessário.

Transformação digital e o mercado B2B: dinâmico, fragmentado e repleto de oportunidades

O mercado brasileiro de transformação digital é uma das regiões de crescimento mais dinâmico do mundo. Seu volume foi estimado em US$ 26,72 bilhões em 2025 e a expectativa é que alcance US$ 30,28 bilhões em 2026 – representando uma taxa de crescimento anual de 13,32% até 2031, quando o volume de mercado projetado é de US$ 56,6 bilhões. Os fatores que impulsionam esse crescimento incluem o boom do PIX (sistema brasileiro de pagamentos instantâneos com 42 bilhões de transações somente no setor financeiro), investimentos substanciais em nuvem por hiperescaladores como AWS, Microsoft e Google, e incentivos governamentais da Lei do Bem, que oferece isenções fiscais para modernizações da Indústria 4.0.

A conectividade 5G já alcança 64% da população brasileira, criando a infraestrutura necessária para aplicações escaláveis ​​de IoT e computação de borda. No setor B2B, isso significa que a implementação do 5G não está apenas transformando a indústria de telecomunicações, mas também viabilizando redes industriais privadas (M2M – comunicação máquina a máquina) nos setores de manufatura, saúde e agronegócio. São Paulo se tornou o maior polo de startups da América Latina, o Rio de Janeiro está focado em energia e cidades inteligentes, Belo Horizonte em IA e IoT, e Recife nas indústrias criativas e tecnologia governamental.

Para as empresas B2B europeias, isso resulta em um cenário de mercado de duas vertentes: por um lado, há a demanda por hardware, máquinas, equipamentos e componentes industriais – um negócio de exportação tradicional que agora se torna mais favorável em termos de tarifas graças ao acordo Mercosul. Por outro lado, surge um mercado crescente para soluções de software, tecnologias de plataforma, sistemas ERP, automação e aplicações de IA. Empresas alemãs como SAP e Siemens tiveram presença marcante na Hannover Messe 2026, onde o Brasil foi o país parceiro e apresentou mais de 300 empresas. O evento evidenciou o quanto a autoimagem do Brasil mudou: o país não quer mais apenas fornecer matérias-primas, mas ser percebido como um parceiro tecnológico em pé de igualdade.

 

🎯🎯🎯 Fornecimento global e comércio de commodities com logística integrada

Matérias-primas, fornecimento global e comércio

Matérias-primas, compras e comércio globais - Imagem: Xpert.Digital

Aviões de carga de última geração, rotas de transporte otimizadas e cadeias logísticas multimodais são intercambiáveis ​​— podem ser comprados, alugados ou terceirizados. O que o dinheiro não pode comprar são contatos diretos com produtores em minas peruanas, relações de fornecimento confiáveis ​​nos países da CEI e anos de confiança construída em mercados desconhecidos para estrangeiros. A vantagem competitiva decisiva no comércio global de commodities não reside no transporte da mercadoria do ponto A ao ponto B, mas em saber de onde ela vem, quem a produz e como obter acesso a ela antes mesmo que outros saibam que o mercado existe. Quem detém a rede define o preço. Todos os outros pagam.

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Redução de tarifas, disputa climática, concorrência chinesa — as três alavancas do acordo Mercosul

O acordo Mercosul: 25 anos de negociações, um ponto de virada histórico

Em 1º de maio de 2026, o componente comercial do acordo UE-Mercosul entrou em vigor provisoriamente – uma data de significado histórico. Após mais de 25 anos de negociações, repetidamente frustradas por questões ambientais, interesses agrícolas conflitantes e mudanças políticas, a pressão geopolítica resultante da reeleição de Donald Trump e suas políticas comerciais protecionistas finalmente trouxe um avanço. Em 8 de janeiro de 2026, uma maioria qualificada dos Estados-membros da UE no Conselho Europeu votou a favor do acordo – com a Itália detendo o voto decisivo. França, Polônia e Áustria votaram contra até o último momento.

O acordo cria a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado combinado de aproximadamente 770 milhões de habitantes e quase 20% da produção econômica global. O volume de comércio entre a UE e o Mercosul já gira em torno de € 88 bilhões. Após a ratificação completa, as tarifas seriam gradualmente eliminadas em 91% das exportações da UE para os países do Mercosul e em 92% das exportações do Mercosul para a UE. A aplicação provisória se aplica inicialmente apenas às disposições comerciais, visto que o Parlamento Europeu solicitou uma revisão pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, para a qual não há prazo definido.

Para o Brasil, a maior economia do Mercosul, isso representa um ponto de virada na política econômica. O país não só ganha melhor acesso ao mercado da região econômica mais rica do mundo, como também uma segurança no planejamento estratégico que antes lhe faltava. Investidores que desenvolvem uma estratégia de longo prazo para o Brasil agora podem contar com um arcabouço regulatório mais confiável.

Oportunidades para a indústria alemã e europeia: redução tarifária e seus limites

Para o setor de engenharia mecânica alemão e europeu, o acordo com o Mercosul representa um verdadeiro ponto de virada. Anteriormente, tarifas de 14% a 20% eram aplicadas a máquinas, 35% a automóveis e até 18% a produtos químicos. O acordo estipula que 95% de todos os produtos de engenharia mecânica se beneficiarão de uma redução gradual das tarifas. A VDMA (Associação Alemã de Engenheiros) estima que as exportações alemãs de máquinas para os quatro países do Mercosul poderão aumentar dos atuais 3,5 bilhões de euros para até 5 bilhões de euros até 2040.

No entanto, os prazos para as reduções tarifárias são estimados em dez anos e, em alguns casos, até 15 anos. Os benefícios, portanto, se materializarão no médio e longo prazo. Apenas para alguns produtos, como tornos para metalurgia, máquinas têxteis e máquinas para confeitaria, a redução tarifária entrará em vigor imediatamente no primeiro ano após a entrada em vigor do acordo. Para outros produtos — como máquinas de ordenha, prensas de ração e certas bombas com dispositivos de medição — não está prevista nenhuma redução tarifária, demonstrando que o acordo de fato leva em consideração os interesses de proteção de setores específicos. Além da redução tarifária em si, o acordo também harmoniza normas e padrões técnicos que anteriormente atuavam como barreiras comerciais não tarifárias. Para os fabricantes alemães de máquinas com subsidiárias no Brasil, isso significa que a criação de valor local também pode ser integrada mais facilmente do ponto de vista regulatório.

No setor automotivo, a situação inicial é particularmente dramática: a tarifa de importação de 35% está sendo gradualmente eliminada. Fabricantes alemães como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, que já produzem localmente, se beneficiam de maior previsibilidade e cadeias de suprimentos mais eficientes. Ao mesmo tempo, precisam lidar com uma nova realidade: o mercado brasileiro de veículos elétricos está em plena expansão, impulsionado principalmente por fabricantes chineses. Em janeiro de 2026, 14,6% dos veículos vendidos eram elétricos – quase o dobro em relação a janeiro de 2025. Em fevereiro de 2026, as vendas de veículos elétricos aumentaram 92% em comparação com o mesmo período do ano anterior. A BYD e outras fabricantes chinesas reconheceram a importância estratégica do Brasil desde cedo e estão construindo fábricas de montagem no país. As montadoras europeias enfrentam uma concorrência acirrada nesse mercado.

Matérias-primas estratégicas: o Brasil como contrapeso à China

Um aspecto do acordo UE-Mercosul que muitas vezes é sub-representado no debate público diz respeito ao acesso a matérias-primas críticas. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras (aproximadamente 21 milhões de toneladas), o que o torna um recurso potencialmente fundamental para a independência tecnológica da Europa em relação à China. Mais de 90% do processamento de terras raras está atualmente em mãos chinesas — um risco de concentração estratégica que afeta diretamente as indústrias europeias. Sem elementos de terras raras como neodímio, disprósio e térbio, não haveria turbinas eólicas, motores elétricos nem sistemas de defesa modernos.

O acordo Mercosul agora cria um marco regulatório para investimentos europeus na extração e processamento de matérias-primas brasileiras. Projetos como a iniciativa MagBras, na qual empresas europeias como a ArcelorMittal estão envolvidas, visam construir uma cadeia de valor completa, da mineração ao ímã acabado. Até 2030, a associação brasileira de mineração Ibram prevê investimentos de mais de US$ 18 bilhões somente em cobre, lítio, grafite, níquel, terras raras e cobalto. Pelo menos 50 projetos já estão em fase de desenvolvimento. Esse desenvolvimento é geopoliticamente significativo: o Brasil está se posicionando conscientemente como um parceiro confiável do Ocidente no fornecimento de matérias-primas, um contraponto ao domínio chinês – e o presidente Lula está usando isso estrategicamente para atrair investimentos internacionais.

Riscos e críticas: os lados desconfortáveis ​​do acordo

Qualquer análise séria deve também identificar os riscos e as críticas associadas ao acordo UE-Mercosul. As objeções mais significativas decorrem da agricultura europeia e da proteção ambiental. O acordo abre os mercados da UE às exportações agrícolas brasileiras — carne bovina, aves, açúcar, etanol, milho e arroz — sem garantir que esses produtos sejam produzidos segundo os mesmos padrões ambientais e sociais que os seus equivalentes europeus. Atualmente, um terço das importações de aves da UE provém de países do Mercosul.

Associações agrícolas e sindicatos europeus alertam para um desequilíbrio estrutural: os produtores brasileiros não estão sujeitos às mesmas regulamentações relativas a pesticidas, desmatamento, bem-estar animal e emissões de CO₂ que os agricultores da UE. Mais de 30 ingredientes ativos aprovados para a cana-de-açúcar no Brasil são proibidos para a beterraba sacarina na UE, e 52% dos ingredientes ativos aprovados para o milho não são aprovados na UE. Isso cria condições de concorrência desiguais, criticadas como dumping ambiental e social.

Do ponto de vista ecológico, alertas foram emitidos de que o acordo poderia levar a um desmatamento adicional de 620 mil a 1,35 milhão de hectares em cinco anos. Ele incentivaria as exportações agrícolas, consolidando assim um modelo econômico focado em monoculturas e no uso de pesticidas. O Brasil tem o segundo maior consumo de pesticidas por hectare no mundo, depois da China. Os críticos consideram que as disposições do acordo sobre sustentabilidade não são vinculativas nem suficientes. Embora a Comissão Europeia tenha anunciado "salvaguardas robustas" para produtos agrícolas sensíveis e pretenda promulgar legislação específica para monitoramento, resta saber se esses mecanismos serão eficazes na prática.

Para o próprio Brasil, laços mais estreitos com a Europa também acarretam riscos: a redução gradual das tarifas abre o mercado brasileiro para produtos europeus, o que significa uma pressão competitiva considerável para os produtores locais que antes eram protegidos por altas tarifas. As pequenas e médias empresas industriais, em particular, que antes operavam em um nicho protegido, agora precisam se modernizar ou resistir a essa concorrência acirrada.

O cenário competitivo do Brasil: a China como a verdadeira incógnita

Qualquer análise das relações econômicas entre Brasil e Europa estaria incompleta sem considerar o terceiro ator em segundo plano: a China. A República Popular da China já é o parceiro comercial mais importante do Brasil e domina grande parte das exportações brasileiras de matérias-primas, além de, cada vez mais, o mercado de importação de bens industriais e veículos. Montadoras chinesas como a BYD e a Great Wall Motor estabeleceram fábricas no Brasil desde cedo e, por vezes, praticam preços significativamente mais baixos que os da concorrência europeia em veículos elétricos.

Para as empresas europeias, isso significa que, embora o acordo com o Mercosul abra portas, não garante participação de mercado. Aquelas que contam com tarifas mais baixas que automaticamente levam ao aumento das vendas ficarão desapontadas. O mercado brasileiro é altamente competitivo e continuará sendo. O sucesso depende da qualidade do produto, da abrangência do serviço, da liderança tecnológica e da capacidade de alavancar parcerias locais e se integrar ao ecossistema brasileiro. As empresas alemãs já estabelecidas no país têm uma vantagem estrutural sobre as recém-chegadas – mas essa vantagem precisa ser defendida ativamente.

O Brasil como ator político: Lula, a Europa e a nova visão de mundo

O papel do Brasil na diplomacia comercial global também é uma história política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiu seu terceiro mandato em janeiro de 2023, posicionou deliberadamente o Brasil como um "ator global do Sul Global" — um país que comercializa com o Ocidente, mas não sinaliza automaticamente sua disposição de fazer o mesmo. A presença de Lula na abertura da Hannover Messe 2026, juntamente com o chanceler alemão Friedrich Merz, enviou uma importante mensagem diplomática. O Brasil se apresentou sob o lema "A Indústria de Hoje" — ou seja, como uma indústria do presente, não do passado.

A lógica geopolítica por trás dessa reaproximação é clara: diante do protecionismo dos EUA sob Trump, da crescente penetração chinesa em muitas economias emergentes e de um cenário comercial global cada vez mais multipolar, ambos os lados buscam diversificação. A Europa precisa de matérias-primas, mercados consumidores e parceiros confiáveis ​​para cadeias de suprimentos essenciais. O Brasil precisa de tecnologia, capital e acesso a mercados consumidores abastados. O acordo Mercosul, portanto, não é apenas uma questão de política comercial, mas um projeto de reposicionamento geopolítico para ambos os lados.

O sucesso deste projeto de reposicionamento depende em grande parte da sua implementação. Os acordos comerciais criam oportunidades; não as concretizam automaticamente. Os períodos de transição de até 15 anos para as reduções tarifárias no setor de engenharia mecânica significam que os benefícios reais só serão percebidos na década de 2030. Até lá, o trabalho árduo caberá às empresas, câmaras de comércio, associações e autoridades reguladoras de ambos os lados.

Perspectivas: O que importa agora

A situação econômica do Brasil é complexa, dinâmica e repleta de contradições. O país está crescendo, mas mais lentamente do que poderia. Está reformando seu sistema tributário, mas a transição está demorando. Está abrindo seu mercado, mas com longos prazos de implementação. Possui recursos estratégicos, mas desenvolvê-los exige capital e tempo. E está estreitando laços com a Europa enquanto, simultaneamente, negocia com a China e desconfia dos Estados Unidos.

Para as empresas europeias, e especialmente as alemãs, isso resulta em um curso de ação claro: agora é o momento para o posicionamento estratégico, não para comportamentos hesitantes e passivos. Aqueles que investem no Brasil hoje – em produção local, parcerias tecnológicas, acesso a matérias-primas ou soluções digitais – têm uma vantagem estrutural em termos de horizonte temporal em comparação com aqueles que ficam para trás. O acordo Mercosul não é a solução para todos os problemas, mas é uma base mais sólida do que o Brasil teve nas últimas décadas.

O perfil de risco-retorno para empresas alemãs no mercado B2B brasileiro melhorou significativamente em 2025/2026. Juros elevados, encargos de conformidade e a pressão competitiva da China representam desafios reais. Mas um mercado de 216 milhões de pessoas, um setor de PMEs em crescimento, uma política industrial ambiciosa, abundantes recursos de matéria-prima e, agora, um acesso ao mercado permanentemente facilitado graças ao acordo do Mercosul se combinam para criar uma oportunidade difícil de ignorar. O Brasil não é um mercado fácil, mas é um mercado necessário.

 

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