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ReArm Europe: Como a UE está reestruturando sua defesa com 800 bilhões de euros (Plano/Preparação 2030)

ReArm Europe: Como a UE está reestruturando sua defesa com 800 bilhões de euros

ReArm Europe: Como a UE está reestruturando sua defesa com 800 bilhões de euros – Imagem: Xpert.Digital

Um ponto de virada em Bruxelas: Todos os fatos sobre a ofensiva histórica de rearme da Europa

Bilhões gastos na defesa de Von der Leyen: quem decide e quem paga a conta no final?

A política de segurança da Europa encontra-se num ponto de viragem histórico. A guerra na Ucrânia criou uma realidade em que a questão já não é se a Europa deve fazer mais pela sua defesa, mas sim como e com que rapidez. Os dividendos da paz, acumulados ao longo de décadas, esgotaram-se, e os apelos à autonomia estratégica e a uma capacidade de defesa robusta e credível são mais fortes do que nunca.

Em meio a essa nova urgência, a Comissão Europeia apresentou o “Plano ReArm Europe/Readiness 2030” — uma iniciativa ambiciosa e abrangente que visa mobilizar nada menos que € 800 bilhões em investimentos adicionais em defesa até o final da década. Mas como essa enorme quantia será arrecadada e quais são as consequências políticas, econômicas e jurídicas dessa mudança de paradigma? O plano se baseia em uma estrutura multifacetada de cinco pilares: um novo instrumento de empréstimo financiado por dívida conjunta (SAFE), uma flexibilização sem precedentes das regras fiscais da UE para gastos nacionais, a realocação flexível de fundos de desenvolvimento regional, um papel ampliado para o Banco Europeu de Investimento e a mobilização maciça de capital privado.

Essa ofensiva, contudo, não está isenta de controvérsias. Ela desencadeou um profundo debate sobre o futuro da União: como conciliar o necessário fortalecimento das capacidades de defesa com a estabilidade econômica a longo prazo e as regras de endividamento? Mais recursos financeiros levarão automaticamente a uma defesa europeia mais eficaz e integrada, ou aprofundarão a fragmentação nacional? E qual o papel do controle democrático pelo Parlamento Europeu quando medidas cruciais são decididas por meio de cláusulas de emergência? Além do plano oficial, outras ideias, por vezes radicais, estão circulando, como a criação de um “banco de defesa” específico, que alimentam ainda mais o debate.

O texto a seguir, em formato de perguntas e respostas, desmembra este tema complexo em partes compreensíveis. Examina detalhadamente os pilares individuais do Plano ReArm Europe, analisa os mecanismos jurídicos e financeiros subjacentes, resume opiniões críticas de especialistas e contextualiza as posições das instituições da UE. Serve como um guia para a compreensão de uma das decisões políticas mais importantes que a Europa enfrentou em décadas — uma decisão que moldará significativamente o futuro estratégico, econômico e político do continente.

Por que o financiamento da indústria de defesa da UE se tornou repentinamente uma questão tão central?

O financiamento da indústria de defesa da União Europeia tem ganhado cada vez mais destaque nos últimos anos, mas o ponto de virada decisivo foi, sem dúvida, a invasão não provocada da Ucrânia pela Rússia em 2022. Esse evento alterou fundamentalmente o cenário de segurança da Europa, conferindo nova urgência e ímpeto aos debates sobre defesa. Discussões anteriores, muitas vezes confinadas a conceitos teóricos de autonomia estratégica, foram superadas pela dura realidade de uma guerra nas fronteiras da UE. A necessidade não só de fortalecer as próprias capacidades de defesa, mas também de fornecer apoio material e financeiro à Ucrânia, obrigou os Estados-Membros e as instituições da UE a agirem rapidamente. Documentos como a Bússola Estratégica 2022, que delineia as medidas de segurança e defesa da UE até 2030, e a Declaração de Versalhes, emitida pelos líderes da UE no mesmo ano, refletem essa mudança de paradigma. A constatação de que a paz e a estabilidade na Europa não podem mais ser dadas como certas transformou o financiamento da defesa de uma questão de nicho em uma das principais prioridades da agenda política.

Esta foi a primeira vez que a UE forneceu fundos para a defesa?

Não, a utilização de fundos da UE para fins relacionados com a defesa não é um fenómeno totalmente novo, mas a escala e a natureza do financiamento mudaram drasticamente. As bases foram lançadas pelo Fundo Europeu de Defesa (FED), criado no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2021-2027, que se baseou em projetos-piloto e medidas preparatórias anteriores. A base jurídica do FED foi o artigo 173.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), que confere à UE competências na área da competitividade da sua indústria. Esta abordagem contornou habilmente a proibição de financiamento de operações com aspetos militares ou relacionados com a defesa a partir do orçamento da UE (artigo 41.º, n.º 2, do TFUE), centrando-se no reforço da base industrial e tecnológica do setor da defesa. Posteriormente, foram adotados instrumentos mais específicos, como a Lei de Apoio à Produção de Munições (ASAP) e a Lei Europeia de Apoio à Indústria da Defesa (EDIRPA). No entanto, estes passos iniciais foram modestos em comparação com as somas e os mecanismos que estão a ser discutidos atualmente. No entanto, eles abriram caminho e estabeleceram precedentes legais para a agenda muito mais ambiciosa de hoje.

Qual o contexto político mais amplo que está por trás das atuais iniciativas de defesa?

As iniciativas atuais fazem parte de um realinhamento mais amplo da UE. A Comissão Europeia, sob a presidência de Ursula von der Leyen, definiu a segurança e a defesa como uma prioridade fundamental para o período de 2024-2029. Nas suas orientações políticas, von der Leyen reafirmou o compromisso de trabalhar em prol de uma “União Europeia da Defesa”. Esta visão vai além de meros mecanismos de financiamento e visa uma integração e coordenação mais profundas das políticas de defesa dos Estados-Membros. A publicação do Plano ReArm Europe, em março de 2025, e os trabalhos preparatórios para o primeiro Livro Branco sobre a defesa europeia são manifestações concretas desta estratégia. Este Livro Branco identifica o financiamento – juntamente com a indústria e as capacidades – como um dos pilares da futura defesa da UE. As propostas refletem também as recomendações dos influentes relatórios de Enrico Letta sobre o Mercado Único e de Mario Draghi sobre a competitividade, ambos enfatizando a necessidade de reduzir os entraves burocráticos e de reunir as capacidades europeias para competir a nível global. Trata-se, portanto, de um esforço concertado para integrar a força das políticas económicas, industriais e de segurança da UE.

Plano de Rearmamento da Europa/Preparação 2030: Uma análise detalhada

O que é exatamente o Plano/Preparação ReArm Europe 2030?

O Plano ReArm Europe/Readiness 2030 é uma proposta estratégica da Comissão Europeia, apresentada pela Presidente Ursula von der Leyen em 4 de março de 2025. Seu objetivo principal é mobilizar mais de € 800 bilhões em investimentos adicionais em defesa até 2030. O plano é uma resposta direta à mudança no cenário de segurança na Europa e visa permitir que os Estados-Membros aumentem significativamente seus gastos com defesa, fortaleçam a indústria de defesa europeia e promovam a autonomia estratégica da UE. Não se trata de uma única legislação, mas sim de um pacote de medidas baseado em cinco pilares fundamentais, utilizando diversas ferramentas financeiras e regulatórias para alcançar essa meta ambiciosa. O nome original, "Plano ReArm Europe", foi expandido para "Plano ReArm Europe/Readiness 2030" após preocupações manifestadas por alguns Estados-Membros, particularmente a Itália e a Espanha, para dar maior ênfase à prontidão em vez de simplesmente ao armamento.

Quais são os cinco pilares que formam a base do plano?

O plano está estruturado em torno de cinco pilares fundamentais que foram concebidos para trabalharem em conjunto, a fim de mobilizar os recursos necessários e alcançar os objetivos estratégicos:

  1. Um novo instrumento financeiro denominado "Ação de Segurança para a Europa" (SAFE) tem como objetivo disponibilizar até 150 mil milhões de euros em empréstimos para a aquisição conjunta de equipamento de defesa através da emissão conjunta de dívida.
  2. Fortalecimento do financiamento da defesa nacional através da ativação da cláusula de escape nacional do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que concede aos Estados-Membros maior margem de manobra fiscal para as despesas de defesa.
  3. Utilização mais flexível dos instrumentos existentes da UE, especialmente o Fundo de Coesão, para realocar fundos para projetos relacionados com a defesa.
  4. Um papel ampliado e maiores contribuições do Banco Europeu de Investimento (BEI) para o financiamento de projetos no setor de segurança e defesa.
  5. Mobilizar capital privado através do desenvolvimento da União de Poupança e Investimento para criar uma base de financiamento sustentável para todo o setor de defesa.

Como o plano foi recebido no mais alto nível político?

Nas reuniões especiais do Conselho Europeu, em março de 2025, o plano recebeu apoio fundamental dos Chefes de Estado e de Governo da UE. Reconheceram o desafio existencial representado pela guerra na Ucrânia e acolheram favoravelmente a intenção da Comissão de ativar a cláusula de escape do Pacto de Estabilidade e Crescimento para facilitar as despesas nacionais. Tomaram nota da proposta do instrumento de empréstimo SAFE, no valor de 150 mil milhões de euros, e apelaram ao Conselho para que a examinasse com a maior brevidade possível. Apoiaram também os planos do BEI para expandir o seu financiamento à indústria da defesa. Os Chefes de Estado e de Governo sublinharam a urgência de acelerar todas as iniciativas para reforçar as capacidades de defesa europeias e reafirmaram que uma UE mais forte daria um contributo positivo para a segurança transatlântica e complementaria a NATO, que continua a ser a pedra angular da defesa coletiva para a maioria dos Estados-Membros da UE. Ao mesmo tempo, apelaram à Comissão para que explorasse novas opções de financiamento à escala da UE e promovesse a mobilização de fundos privados.

Quais são as reações iniciais dos especialistas ao plano?

As reações dos especialistas foram mistas e podem ser resumidas como “positivas, mas cautelosas”. Por exemplo, Paul Dermine, professor de Direito da UE, considera o plano um importante sinal político e um primeiro passo para fortalecer o papel da Comissão na política de defesa. No entanto, ele alerta que o plano continua fortemente dependente de gastos nacionais e, portanto, não aborda os principais problemas da fragmentação do mercado e da falta de interoperabilidade. Ele argumenta que os € 800 bilhões projetados podem não ser totalmente alcançados e que instrumentos mais ambiciosos, como empréstimos conjuntos nos moldes do Next Generation EU (NGEU) ou por meio do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), não foram considerados. Outros especialistas, como Fenella McGerty, do IISS, destacam os riscos econômicos. Embora reconheçam a necessidade de aumento de gastos, alertam que a flexibilização das regras fiscais e a criação de fundos extraorçamentários podem comprometer a sustentabilidade da dívida de longo prazo dos Estados-Membros, especialmente considerando os encargos financeiros existentes decorrentes das mudanças demográficas e da ação climática. O consenso geral é que o sinal político deve agora ser seguido por medidas práticas e bem planejadas para surtir efeito.

 

Seus especialistas em logística de dupla utilização

Especialistas em logística de dupla utilização - Imagem: Xpert.Digital

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O Plano ReArm Europe: Novos instrumentos financeiros para a defesa da Europa

Plano ReArm Europe: Novos instrumentos financeiros para a defesa da Europa – Imagem: Xpert.Digital

Pilar 1: O instrumento de empréstimo SAFE

O que é exatamente a “Medida de Segurança para a Europa” (SAFE)?

O SAFE é um novo instrumento financeiro proposto, concebido como componente central do Plano ReArm Europe. Prevê que a Comissão Europeia angarie até 150 mil milhões de euros nos mercados de capitais em nome da UE. Estes fundos seriam então distribuídos aos Estados-Membros sob a forma de empréstimos a longo prazo. O objetivo específico destes empréstimos é financiar investimentos públicos urgentes e de grande escala na Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (BTID). Especificamente, os fundos destinam-se a permitir a aquisição conjunta de ativos críticos de defesa, como munições, mísseis, sistemas de artilharia, bem como capacidades nas áreas do espaço, da inteligência artificial e da ciberdefesa. O instrumento foi concebido para operar durante um período de cinco anos (2025-2030) e, por conseguinte, destina-se a proporcionar financiamento inicial a curto e médio prazo.

Em que fundamentos jurídicos deve ser instituída a SAFE e quais serão as consequências processuais?

A Comissão propõe a criação do SAFE com base no artigo 122.º do TFUE. Este artigo é um instrumento de emergência que permite ao Conselho, mediante proposta da Comissão, adotar medidas quando um Estado-Membro se encontra em dificuldades ou gravemente ameaçado por eventos excecionais fora do seu controlo. A consequência processual crucial desta base jurídica é a exclusão do Parlamento Europeu do processo legislativo regular; a decisão é tomada exclusivamente pelo Conselho. Isto já aconteceu com a criação do fundo de recuperação NGEU durante a pandemia de COVID-19, o que gerou considerável insatisfação no Parlamento. Em resposta, foi acordado um “procedimento de revisão orçamental”, que confere ao Parlamento, pelo menos, um papel consultivo na análise das implicações orçamentais de tais medidas, mas não um poder formal de codecisão.

Quais são as condições associadas à utilização dos empréstimos SAFE?

A utilização desses fundos está sujeita a condições claras para garantir o cumprimento dos objetivos do plano. A condição mais importante é a aquisição conjunta. Um projeto deve ser executado por pelo menos dois Estados-Membros, ou por um Estado-Membro em conjunto com a Ucrânia ou um Estado da EFTA/EEE. Além disso, a proposta inclui uma "cláusula de preferência europeia". Esta estipula que os contratantes envolvidos na aquisição e seus principais subcontratantes devem ter sua infraestrutura e instalações de produção em um Estado-Membro, um Estado da EFTA/EEE ou na Ucrânia. Outra condição fundamental é que o valor dos componentes originários desses países não deve ser inferior a 65% do custo total estimado do produto final. Isso visa garantir que os fundos fortaleçam principalmente a indústria de defesa europeia e aliada e reduzam a dependência de cadeias de suprimentos não europeias.

Quais são as preocupações específicas levantadas pelos especialistas em relação ao instrumento SAFE?

Daniel Fiott, da CSDS, destaca vários pontos críticos. Primeiro, a mudança do financiamento tradicional da defesa da UE, frequentemente baseado em doações (como no caso do EVF), para um instrumento puramente baseado em empréstimos levanta questões. Os empréstimos devem ser reembolsados, o que pode representar um fardo significativo para alguns Estados-Membros, particularmente aqueles já bastante endividados, e dissuadi-los de participar. Existe o risco de que os Estados mais ricos não precisem dos empréstimos e os Estados mais pobres não consigam arcar com eles, comprometendo a eficácia geral do instrumento. Segundo, permanece incerto quais critérios serão usados ​​para alocar os empréstimos aos Estados-Membros e como será alcançado um equilíbrio justo entre as necessidades específicas de defesa de cada país e o apoio à Ucrânia. A maior preocupação, no entanto, é que, se o instrumento não for concebido de forma criteriosa, ele exacerbará, em vez de reduzir, a fragmentação nacional nas aquisições de defesa, uma vez que cada Estado-Membro poderá ser tentado a garantir "sua" fatia do bolo para sua própria indústria nacional, em vez de criar uma base europeia verdadeiramente integrada.

Pilar 2: Flexibilização das regras fiscais para gastos nacionais

De que maneira exatamente as regras fiscais da UE para gastos com defesa devem ser flexibilizadas?

O plano propõe a utilização do novo quadro de governança econômica da UE para dar aos Estados-Membros maior flexibilidade nos gastos com defesa. Isso seria alcançado por meio da ativação coordenada da Cláusula de Escape Nacional (NEC). Essa cláusula foi concebida para circunstâncias excepcionais e específicas de cada país, fora do controle de um Estado-Membro, que impactam significativamente suas finanças públicas. Ao contrário da cláusula de escape geral, que se aplica a toda a UE ou à Zona do Euro em caso de grave recessão econômica, a NEC pode ser usada de forma mais seletiva. Se ativada, o chamado "mecanismo de conta de controle" seria acionado. Isso significa que os gastos adicionais com defesa de um Estado-Membro não seriam temporariamente registrados como uma despesa na avaliação do cumprimento de sua trajetória de gastos. No entanto, ainda seriam registrados como uma anotação para manter a transparência fiscal e enfatizar a natureza temporária da exceção.

Existem limites máximos ou definições específicas para essas despesas?

Sim, a Comissão propôs orientações na sua comunicação para prevenir abusos e garantir a sustentabilidade orçamental. A flexibilidade adicional será limitada a um máximo de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) por país por ano. Além disso, a aplicação desta cláusula será limitada a uma duração máxima de quatro anos. A definição do que constitui “despesas com a defesa” basear-se-á na Classificação das Funções do Governo (COFOG), reconhecida internacionalmente. Esta categoria é ampla e inclui não só a aquisição de equipamento e infraestruturas militares, mas também as despesas com bens de dupla utilização quando usados ​​pelas forças armadas, custos com pessoal, formação e assistência militar a outros países. A Comissão estima que este mecanismo poderá desbloquear 650 mil milhões de euros adicionais em despesas nacionais com a defesa em toda a UE nos próximos quatro anos.

Quais são os potenciais riscos e desvantagens dessa abordagem?

Especialistas apontam riscos significativos. Fenella McGerty, do IISS, alerta que, embora a flexibilização das regras de endividamento possa criar uma folga financeira a curto prazo, ela pode agravar os problemas de dívida a longo prazo de muitos Estados-membros. As finanças públicas já estão sob pressão devido ao envelhecimento da população, ao aumento dos custos da saúde e aos investimentos maciços necessários para a transição verde. Dívidas adicionais para a defesa podem comprometer a estabilidade econômica. Outro risco, destacado por Bertrand De Cordoue, do Instituto Jacques Delors, é a duplicação e a ineficiência. Se cada Estado-membro aumentar seus gastos individualmente, sem uma forte coordenação europeia e compras conjuntas, isso levará à fragmentação contínua do mercado. Em vez de um mercado de defesa europeu integrado com sistemas interoperáveis, o resultado poderá ser 27 programas de armamento otimizados nacionalmente, porém ineficientes e caros. O sucesso deste pilar, portanto, depende crucialmente da vinculação dos gastos nacionais aos objetivos estratégicos europeus.

Pilar 3: Realocação dos Fundos de Coesão

Como os fundos destinados ao desenvolvimento regional podem ser usados ​​para a defesa?

A ideia é permitir que os Estados-Membros realoquem fundos não alocados do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) para projetos relacionados com a defesa. Esta não é uma realocação automática, mas sim uma opção que os Estados-Membros podem exercer no âmbito da revisão intercalar em curso dos seus programas de política de coesão (nos termos do artigo 18.º do Regulamento (UE) 2021/1060). As indústrias de defesa são frequentemente importantes empregadoras regionais e impulsionadoras da inovação. Os projetos poderiam, portanto, ser concebidos para reforçar as capacidades de defesa e promover o desenvolvimento regional, por exemplo, através de investimentos na infraestrutura de instalações militares, em centros de investigação e desenvolvimento ou na formação de mão de obra para a indústria de defesa. A Comissão anunciou a sua intenção de propor medidas para tornar este processo de realocação mais flexível e atrativo.

A política de coesão já foi usada anteriormente em resposta a crises?

Sim, a política de coesão tem demonstrado ser um instrumento flexível para gerir crises inesperadas nos últimos anos. Por exemplo, após a invasão russa da Ucrânia, foram lançadas as iniciativas CARE (Medidas de Coesão para Refugiados na Europa) e FAST-CARE. Estas permitiram aos Estados-Membros utilizar os fundos de coesão de forma rápida e sem burocracia para o acolhimento e apoio aos refugiados, bem como para fazer face às consequências económicas da guerra. Estes precedentes demonstram que a relocalização de fundos é possível em princípio, desde que exista vontade política.

Há alguma preocupação em relação a essa realocação de fundos?

Sim, existem preocupações significativas, particularmente por parte de representantes regionais e defensores da política de coesão tradicional. O Comité das Regiões da União Europeia afirmou que qualquer realocação deste tipo deve ser estritamente limitada e focada em projetos que promovam a coesão territorial, económica e social. Isto poderia incluir, por exemplo, o apoio a clusters regionais de defesa já existentes. A principal preocupação reside no facto de os objetivos originais da política de coesão — reduzir as disparidades económicas entre as regiões da UE — serem prejudicados se os fundos forem cada vez mais “desviados” para outras prioridades nacionais. Os relatores do Parlamento Europeu para o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) também salientaram que o orçamento da UE precisa de estar melhor equipado para responder a crises, de modo a que os fundos de coesão não sejam constantemente utilizados como reserva de emergência e possam ser usados ​​para os seus reais objetivos de investimento a longo prazo.

Pilar 4: O papel do Banco Europeu de Investimento (BEI)

Qual o papel que o BEI desempenhou até agora no financiamento da defesa?

Tradicionalmente, o papel do BEI, o "banco da UE", no financiamento da defesa era severamente restrito. Seus estatutos e políticas de empréstimo excluíam explicitamente o financiamento de bens letais, como armas, munições e infraestrutura puramente militar. No entanto, era permitido financiar investimentos em bens de "dupla utilização" — ou seja, tecnologias e serviços que podem servir tanto a fins civis quanto militares. Exemplos incluem comunicações via satélite, tecnologias de cibersegurança e materiais avançados. Após a invasão russa de 2022, o BEI respondeu com a "Iniciativa Europeia de Segurança Estratégica" (SESI), comprometendo-se com até € 6 bilhões para tais projetos de dupla utilização, valor posteriormente aumentado para € 8 bilhões até 2027. Mesmo assim, o financiamento de armamentos básicos permaneceu proibido.

Que alterações foram feitas ou propostas à política do BEI?

Diante da enorme pressão política de muitos Estados-membros, o BEI flexibilizou significativamente sua política. Um passo crucial foi a abolição, em maio de 2024, da regra que exigia que projetos de dupla utilização gerassem mais de 50% de sua receita esperada com uso civil. Isso abriu caminho para projetos com um foco militar mais acentuado. Em março de 2025, a nova presidente do BEI, Nadia Calviño, propôs mudanças ainda mais abrangentes. Entre elas, o financiamento explícito de produtos de defesa “não letais”, como tecnologia de segurança de fronteiras, sistemas anti-interferência e infraestrutura crítica. A proposta mais importante, no entanto, é a criação de uma linha permanente de financiamento para a defesa, que elevaria esse setor ao mesmo nível estratégico das prioridades existentes de sustentabilidade e coesão. O Conselho de Administração do BEI aprovou posteriormente essa ampliação da elegibilidade, com o objetivo de “pelo menos dobrar” o investimento nessa área.

Pilar 5: Mobilização de capital privado

Por que a mobilização de capital privado é tão importante para o plano?

Os orçamentos públicos dos Estados-Membros da UE já se encontram sob considerável pressão. Mobilizar capital privado é, portanto, essencial para colmatar o enorme défice de financiamento no setor da defesa. Os investidores privados, desde capitalistas de risco a grandes fundos de pensões e bancos, gerem biliões de euros. O Plano ReArm Europe visa canalizar parte deste capital para a indústria europeia da defesa. Isto é particularmente importante para as pequenas e médias empresas (PME) e para as startups de defesa, que muitas vezes têm dificuldades em aceder a financiamento, mas são cruciais para a inovação.

Como é que a “União de Poupança e Investimento” vai ajudar neste caso?

A “União de Poupança e Investimento” é um projeto de longo prazo para aprofundar e integrar os mercados de capitais europeus. Abrange a conclusão da União Bancária e da União dos Mercados de Capitais. O objetivo é criar um verdadeiro mercado único para serviços financeiros, onde o capital possa fluir mais livremente através das fronteiras. Um mercado integrado como este tornaria mais fácil e barato para as empresas, incluindo as do setor da defesa, captar recursos. Também expandiria as oportunidades de investimento para os investidores. Ao reduzir as barreiras regulatórias e facilitar o investimento transfronteiriço, a União de Poupança e Investimento visa mobilizar as imensas poupanças privadas dos europeus e canalizá-las para prioridades estratégicas como a transformação verde e digital, mas também para a indústria da defesa.

Quais são os obstáculos que impedem o financiamento privado do setor de defesa?

Um obstáculo significativo são os chamados critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), que se tornaram um componente central das estratégias de investimento de muitos investidores institucionais, como bancos e fundos de pensão. O setor de defesa é frequentemente classificado categoricamente como insustentável e excluído de investimentos. Essa relutância em investir em empresas que fabricam armamentos representa uma barreira considerável ao financiamento. O desafio para os formuladores de políticas será criar um ambiente regulatório que aborde essas preocupações, talvez por meio de uma visão mais matizada de "defesa" como uma contribuição para a segurança nacional e europeia e, portanto, como um bem social, sem comprometer os princípios fundamentais do investimento responsável.

 

Centro de Segurança e Defesa - Assessoria e Informação

Centro de Segurança e Defesa - Imagem: Xpert.Digital

O Centro de Segurança e Defesa oferece aconselhamento especializado e informações atualizadas para apoiar eficazmente empresas e organizações no reforço do seu papel na política europeia de segurança e defesa. Trabalhando em estreita colaboração com o Grupo de Trabalho de Defesa da SME Connect, promove particularmente as pequenas e médias empresas (PME) que desejam desenvolver ainda mais a sua capacidade de inovação e competitividade no setor da defesa. Como ponto de contacto central, o Centro cria, assim, uma ponte crucial entre as PME e a estratégia europeia de defesa.

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Ideias de financiamento alternativo além do Plano ReArm Europe

Quais modelos alternativos de financiamento estão sendo discutidos?

Para além dos pilares incluídos no Plano ReArm Europe, várias outras ideias estão a ser debatidas nos círculos políticos e técnicos. Uma das mais proeminentes é a criação de um “banco de armamento” especializado ou, num sentido mais amplo, um “Banco de Defesa, Segurança e Resiliência” (BDSR). Outra ideia é o aumento direto do orçamento da defesa da UE no próximo Quadro Financeiro Plurianual. Por fim, também se discutiu a utilização de empréstimos não utilizados do Fundo de Recuperação da COVID-19 (FRR), embora esta opção seja considerada menos realista.

Qual é a ideia por trás de um “banco de armamentos”?

A ideia de um “banco de defesa”, inspirada no modelo do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), visa criar um instrumento de financiamento ágil e especializado, fora do quadro restritivo dos tratados da UE e do orçamento da União Europeia. Tal banco não seria capitalizado pela UE como um todo, mas diretamente pelos Estados participantes e garantido por suas garantias nacionais. Isso traria diversas vantagens:

  1. Isso contornaria as restrições legais do tratado da UE em relação aos gastos militares.
  2. Isso permitiria a participação voluntária. Estados-membros neutros da UE, como a Áustria, a Irlanda ou Malta, não seriam obrigados a participar e não teriam poder de veto.
  3. Também poderia ser aberto a países não pertencentes à UE, como o Reino Unido ou a Noruega, o que ampliaria a base financeira e fortaleceria a cooperação em segurança na Europa.

Este banco poderia fornecer empréstimos a juros baixos para a compra de armamentos e para investimentos na indústria de defesa, alavancando assim fundos consideráveis.

Em que difere o proposto “Banco de Defesa, Segurança e Resiliência” (DSRB) deste?

O DSRB é um conceito ainda mais amplo. Ele financiaria não apenas a defesa tradicional, mas também investimentos em resiliência social mais abrangente, como infraestrutura crítica, segurança energética e proteção contra ciberataques e desinformação. Ofereceria empréstimos com juros baixos e modelos de leasing para equipamentos, além de proteger os bancos comerciais contra riscos, facilitando o financiamento, principalmente para empresas de defesa de menor porte. Uma proposta fundamental, porém controversa, para o financiamento inicial é a utilização de fundos congelados do Banco Central da Rússia ou, pelo menos, dos rendimentos gerados por eles. A independência do BEI permitiria que o DSRB operasse com mais flexibilidade e evitasse suas diretrizes restritivas de empréstimo.

Um aumento no orçamento da UE seria uma opção?

Sim, e muitos no Parlamento Europeu apoiam esta abordagem, pois garantiria a maior supervisão democrática. O Comissário Europeu da Defesa e do Espaço, Andrius Kubilius, propôs a alocação de cerca de 100 mil milhões de euros à defesa no próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP), a partir de 2028. Este seria um aumento considerável em comparação com o financiamento atual. Embora o orçamento da UE não possa financiar operações militares, pode, como já acontece, apoiar a base industrial, a investigação e o desenvolvimento, a mobilidade militar e os projetos de dupla utilização. Atualmente, porém, não existe praticamente qualquer margem de manobra no orçamento da UE. A rubrica 5, “Segurança e Defesa”, representa apenas cerca de 1,3% da despesa total. Um aumento significativo exigiria negociações difíceis entre os Estados-Membros sobre a dimensão global do orçamento e a atribuição de prioridades, mas seria o caminho mais transparente e controlado pelo Parlamento.

A posição do Parlamento Europeu

Qual é a posição geral do Parlamento Europeu sobre os planos?

Em um debate plenário em março de 2025, uma ampla maioria dos grupos políticos no Parlamento Europeu expressou seu apoio fundamental ao fortalecimento das capacidades de defesa europeias. Muitos eurodeputados saudaram as iniciativas da Comissão como um passo importante e necessário na direção certa. Reafirmaram o compromisso de longa data do Parlamento com uma segurança mais robusta da UE e enfatizaram a necessidade de continuar apoiando a Ucrânia e aumentando a autonomia estratégica da UE, especialmente em vista da agressão russa e das incertezas na parceria transatlântica.

Quais foram as preocupações e críticas específicas levantadas pelo Parlamento?

Apesar do consenso geral, os eurodeputados levantaram várias preocupações importantes. Um ponto central de crítica foi a base jurídica proposta pela Comissão para o instrumento SAFE, o artigo 122.º do TFUE. Muitos eurodeputados alertaram para o risco de exclusão sistemática do Parlamento do processo legislativo através da aplicação de cláusulas de emergência. Consideraram esta prática uma ameaça à supervisão democrática e à responsabilização. Outro ponto importante foi a preocupação com as prioridades de financiamento. Vários eurodeputados advertiram veementemente que o aumento da despesa com a defesa não deve ocorrer à custa do financiamento da transição verde e social ou da investigação e desenvolvimento. Apelaram a uma estratégia equilibrada que não coloque a segurança em conflito com outros desafios futuros.

Que exigências o Parlamento faz para o futuro?

Para além das críticas, os eurodeputados formularam exigências claras. Muitos enfatizaram que, embora o Plano ReArm Europe fosse um começo, precisava de ser integrado numa estratégia de defesa europeia abrangente e de longo prazo. Simplesmente gastar mais dinheiro não era suficiente; também era necessário gastá-lo “melhor e em conjunto”. Isto incluía o reforço das aquisições conjuntas, a redução da fragmentação e a garantia do acesso a matérias-primas críticas. Os eurodeputados apelaram à Comissão para que intensificasse os seus esforços diplomáticos e desenvolvesse uma estratégia da UE baseada no investimento e na solidariedade para salvaguardar de forma sustentável a soberania europeia. O debate demonstrou que o Parlamento está preparado para apoiar uma política de defesa mais robusta, mas apenas sob a condição de que esta seja implementada de forma transparente, democraticamente legítima e estrategicamente sólida.

 

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