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A ordem econômica da América do Sul está em constante mudança, assim como a aliança estratégica com a Europa por meio do Mercosul.

A ordem econômica da América do Sul está em constante mudança, assim como a aliança estratégica com a Europa por meio do Mercosul.

A ordem econômica da América do Sul está em constante mudança, assim como a aliança estratégica com a Europa por meio do Mercosul – Imagem: Xpert.Digital

O Milagre da Argentina e o Risco do Brasil: O Novo Mapa Econômico do Sul

O novo papel da América do Sul na economia global: entre mudanças radicais, poder dos recursos naturais e uma reaproximação histórica com a Europa.

Dezembro de 2024 marca uma virada geopolítica nas relações entre a Europa e a América Latina. Após um quarto de século de árduas negociações, o acordo UE-Mercosul está perto de ser concluído – um passo que criaria a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de pessoas, e remodelaria os fluxos comerciais globais. No entanto, essa aliança histórica surge em um momento em que a América do Sul atravessa uma transformação profunda e, por vezes, contraditória. Dos pampas argentinos às minas chilenas, o mapa econômico da região está sendo redesenhado.

As estratégias políticas e econômicas das potências sul-americanas dificilmente poderiam ser mais diferentes. Na Argentina, o presidente libertário Javier Milei conduz um experimento de mercado radical com sua "terapia de choque", que trouxe superávits orçamentários ao país pela primeira vez em mais de uma década, mas exige enormes sacrifícios da população. Enquanto isso, o presidente brasileiro Lula da Silva busca a reindustrialização liderada pelo Estado e a energia verde, mas enfrenta o crescente endividamento público. A Colômbia, sob o governo de Gustavo Petro, faz uma ambiciosa tentativa de se libertar da dependência do petróleo, e o Chile consolida sua posição como fornecedor indispensável de cobre e lítio para o mundo.

Para a Europa, voltar-se para este continente heterogêneo, porém promissor, é muito mais do que apenas uma questão de reduzir tarifas sobre carros e máquinas. Trata-se de autonomia estratégica. Num momento em que a competição global por matérias-primas essenciais se intensifica e a dependência da China precisa ser reduzida, a América do Sul, como potência em energia verde e metais para baterias, oferece uma alternativa vital. Seja através do gigantesco campo de gás de xisto de Vaca Muerta, dos ensolarados parques de hidrogênio no nordeste do Brasil ou dos lagos de sal de lítio dos Andes, as sinergias entre a tecnologia europeia e os recursos sul-americanos podem formar a base para a transição energética em ambos os continentes.

Este artigo examina as reformas drásticas nos Estados-nação individuais, analisa as oportunidades e os riscos do acordo Mercosul e mostra por que, apesar dos obstáculos protecionistas e das preocupações ecológicas, a aliança transatlântica é provavelmente a última grande chance da Europa de se afirmar como um parceiro relevante para a China no sul global.

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Entre a euforia das reformas, a fome por matérias-primas e os cálculos geopolíticos: por que a Europa precisa da América Latina agora mais do que nunca?

O continente sul-americano atravessa atualmente uma das transformações econômicas e políticas mais profundas das últimas décadas. Enquanto a Argentina, sob a presidência de Javier Milei, passa por uma mudança radical rumo a uma economia de livre mercado, o Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva, busca uma estratégia de reindustrialização com foco em energias renováveis. A Colômbia, sob a presidência de Gustavo Petro, empenha-se em uma reestruturação fundamental de seu modelo econômico, visando a sustentabilidade social e ambiental, enquanto o Chile tenta consolidar sua posição como fornecedor global de matérias-primas para sua transição energética. Nesse cenário dinâmico, insere-se a finalização do acordo UE-Mercosul em dezembro de 2024, que criará a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de pessoas. Diante das tendências protecionistas, das convulsões geopolíticas e da competição global por matérias-primas essenciais, a questão de como e se ambas as áreas econômicas podem se beneficiar mutuamente tornou-se estrategicamente importante para o futuro de ambas as regiões.

A reinvenção econômica da Argentina sob o experimento libertário de Mileis

O desenvolvimento econômico da Argentina sob a presidência de Javier Milei representa um experimento sem precedentes, atraindo atenção muito além das fronteiras da América Latina. Desde que assumiu o cargo em dezembro de 2023, o autoproclamado anarcocapitalista implementou um programa de austeridade sem paralelo em seu radicalismo na história recente do país. O principal resultado dessa política é a eliminação do déficit orçamentário crônico. Após décadas de orçamentos governamentais deficitários, a Argentina registrou um superávit primário pela primeira vez desde janeiro de 2024. O déficit orçamentário caiu de 6,3% do Produto Interno Bruto (PIB) para zero em dois anos, marcando o primeiro orçamento equilibrado em 15 anos.

O combate à inflação também apresenta progressos notáveis. Quando Milei assumiu o cargo, a taxa de inflação mensal era de 25,5%; desde então, caiu para cerca de 1,6% ao mês, o nível mais baixo em mais de uma década. A taxa de inflação anual, que em alguns momentos ultrapassou os 200%, deverá atingir 27,8% até o final de 2025, uma queda impressionante para os padrões argentinos. A diferença entre a taxa de câmbio oficial e a do mercado paralelo, que era de 153% quando Milei assumiu o cargo, praticamente desapareceu.

A OCDE prevê um crescimento econômico de 5,7% para a Argentina em 2025, enquanto o Fundo Monetário Internacional espera 5,5%. No segundo trimestre de 2025, o PIB cresceu 6,3%, superando o da China e dos EUA. Essa recuperação sucede uma profunda recessão no primeiro ano do governo Milei, que fez parte da chamada terapia de choque. O preço desses sucessos macroeconômicos se reflete no aumento do desemprego e no custo de vida persistentemente elevado. A demanda interna nas classes média e baixa continua prejudicada pelos baixos salários e pelos altos preços.

O cenário de investimentos na Argentina está mudando sob essas novas condições. O setor manufatureiro é o mais importante, representando quase 39% dos US$ 129 bilhões em investimento estrangeiro direto. A Volkswagen anunciou investimentos de US$ 580 milhões em sua fábrica em Buenos Aires no início de abril de 2025. O novo programa RIGI para investimentos de grande escala já aprovou projetos que totalizam mais de US$ 11 bilhões em energia solar, oleodutos, instalações de GNL e extração de lítio.

O calcanhar de Aquiles da Argentina, no entanto, continua sendo sua dívida nacional. Com mais de US$ 63 bilhões, o país lidera a lista dos dez maiores devedores do Fundo Monetário Internacional (FMI), muito à frente da Ucrânia, com quase US$ 15 bilhões, e do Egito, com quase US$ 12 bilhões. Em abril de 2025, o governo concluiu um novo acordo com o FMI que poderia injetar até US$ 20 bilhões em capital novo. A taxa de juros negociada, de 6,47%, é quase cinco pontos percentuais inferior à taxa de mercado atual. Essa dependência do FMI restringe a liberdade de política econômica e torna a Argentina vulnerável a choques externos.

De importância estratégica para o futuro da Argentina é o desenvolvimento da formação de gás de xisto de Vaca Muerta. No primeiro trimestre de 2025, a produção de petróleo aumentou 26% e a de gás, 16%, em comparação com o ano anterior. A formação agora fornece 65% da produção total de petróleo do país e 67% da sua produção nacional de gás. Em agosto de 2025, a produção argentina de petróleo atingiu um recorde de 827.000 barris por dia. O governo planeja exportar US$ 30 bilhões em petróleo e gás até 2030, o que dobraria as atuais exportações globais da Argentina. O projeto Southern Energy LNG deverá criar uma capacidade de exportação de seis milhões de toneladas por ano, com início da produção previsto para o final de 2027. A Argentina também possui a terceira maior reserva de lítio do mundo, o que confere ao país uma posição fundamental na transição energética global.

O Brasil enfrenta um delicado equilíbrio entre as ambições de crescimento e as restrições fiscais.

A maior economia da América Latina, sob a presidência de Lula da Silva, atravessa um cenário complexo, marcado por sólidos índices de crescimento e crescentes riscos fiscais. O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 3,4% em 2024 em comparação com o ano anterior, impulsionado pelo setor de serviços, com crescimento de 3,7%, e pela indústria, com 3,3%. Para 2025, o Ministério da Fazenda prevê crescimento de 2,2%, tendo revisado para baixo sua estimativa inicial de 2,5% devido a dados econômicos mais fracos. O PIB brasileiro deve atingir aproximadamente US$ 2,26 trilhões em 2025.

A agricultura brasileira continua sendo a espinha dorsal da economia exportadora. Entre 22% e 31% do Produto Interno Bruto (PIB) provém da agricultura e do agronegócio, e 42% de toda a receita de exportação vem desse setor. Uma safra recorde de grãos, de 354,7 milhões de toneladas, é projetada para 2025, com a soja permanecendo como o principal produto agrícola, com 177,6 milhões de toneladas. O Brasil é o maior exportador mundial de soja, tendo a China como principal comprador. Essa força agrícola se reflete na balança comercial. Em outubro de 2025, o Brasil registrou um superávit comercial de US$ 6,96 bilhões, um aumento de 70% em relação ao ano anterior.

O lado negativo do desenvolvimento econômico brasileiro se manifesta em seu problema de dívida pública. A dívida pública atingiu quase 78% do PIB, a maior entre as principais economias da América Latina. O Ministério da Fazenda estima que, até 2025, 62,1% da dívida pública federal será volátil e sujeita a flutuações de curto prazo nas taxas de juros, o maior percentual desde o início da coleta de dados em 2008. O Banco Central elevou sua taxa básica de juros, a Selic, para 14,25%, numa tentativa de conter a inflação persistente de 5,5% a 6%, bem acima da meta oficial de 3%. O déficit orçamentário aumentou para aproximadamente 8% do PIB.

Sob o governo Lula, o Brasil está implementando uma nova política industrial focada na reindustrialização verde. O país já obtém mais de 90% de sua eletricidade de fontes renováveis ​​e está investindo na expansão da capacidade de produção de hidrogênio. O Nordeste brasileiro está entre as regiões com as melhores condições naturais do mundo para energia eólica e solar. A União Europeia está apoiando o aumento da produção de hidrogênio na região por meio do projeto Global Gateway Flagship "Parques de Energia Verde e Corredores de Transporte Marítimo Verde no Nordeste do Brasil". A partir daí, amônia verde, metanol e outros derivados de hidrogênio serão exportados para a Europa a baixo custo.

Dentro da União Europeia, a Alemanha é o principal parceiro de importação do Brasil e, inversamente, o Brasil é o principal parceiro das empresas alemãs na América do Sul. Aproximadamente 1.300 empresas com capital alemão atuam no Brasil, gerando cerca de 10% do valor agregado industrial do país. As empresas alemãs exportam para o Brasil mercadorias no valor de mais de 13 bilhões de euros, principalmente produtos químicos, máquinas, veículos e autopeças. Somente em São Paulo, mais de 800 empresas alemãs criaram mais de 250.000 empregos.

A ambiciosa transformação do modelo econômico da Colômbia sob Petro

Sob a presidência de Gustavo Petro, a Colômbia passa por uma profunda transformação que vai muito além das reformas econômicas convencionais. O primeiro presidente de esquerda do país busca reestruturar todo o modelo econômico, passando de uma economia extrativista para uma economia descarbonizada com justiça social e ambiental. No primeiro trimestre de 2025, o PIB da Colômbia cresceu 2,7% em relação ao ano anterior e 0,8% em relação ao mês anterior. No terceiro trimestre de 2025, o país registrou um crescimento de 3,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior, superando as expectativas. O FMI prevê um crescimento de 2,4% para 2025 e de 2,6% para 2026.

As atividades econômicas mais fortes foram a agricultura, a pecuária e a pesca, ambas com 7,1%, seguidas pelo comércio, transporte e hotelaria, com 3,9%. O Banco Central prevê que a Colômbia encerrará 2025 com inflação de 4,4%, em comparação com 5,2% no ano anterior. O consumo privado é considerado o principal motor do crescimento econômico, com projeção de crescimento de 3%.

O governo Petro implementou amplas reformas sociais, incluindo reformas no mercado de trabalho e na previdência. A reforma da previdência introduz uma pensão básica para 2,5 milhões de idosos que vivem em situação de pobreza e torna o sistema previdenciário mais inclusivo. Em novembro de 2025, Petro apresentou ao Congresso uma segunda proposta de reforma tributária, visando arrecadar US$ 6,6 bilhões para garantir o orçamento federal de 2026. No entanto, suas chances de aprovação são consideradas pequenas.

A estrutura de exportação da Colômbia é fortemente dependente de combustíveis fósseis. Petróleo e derivados representaram a maior parcela do total das exportações em 2024, seguidos pelo carvão, com 12,1%. A Colômbia está entre os principais exportadores mundiais de café, banana, óleo de palma e flores de corte. Em junho de 2025, as exportações aumentaram 2,6%, atingindo US$ 3,96 bilhões, impulsionadas por um crescimento de 35,6% nos produtos agrícolas. As exportações de café cresceram 45,8% e as de flores de corte, 32,2%.

A transição energética está no centro da visão de política econômica de Petro. A Colômbia pretende aumentar a participação de energias renováveis ​​em sua produção energética interna dos atuais quatro a cinco por cento para 25 por cento até 2029. Sob a administração de Petro, foram emitidas 23 novas licenças ambientais para projetos de energia eólica e solar. Um projeto de lei propõe transformar a estatal petrolífera Ecopetrol em uma produtora de energia renovável. O país planeja investir US$ 40 bilhões na transição energética, incluindo US$ 14,5 bilhões em energias renováveis ​​e US$ 16 bilhões na expansão da rede elétrica. A Colômbia possui um enorme potencial para energia renovável proveniente da energia solar e eólica.

O desenvolvimento estável do Chile como gigante em matérias-primas na transição energética.

O Chile ocupa uma posição especial entre as economias sul-americanas. O país é considerado uma das economias mais estáveis ​​da América Latina, com crescimento médio do PIB de 0,85% entre 1996 e 2025. O Banco Central do Chile prevê um crescimento entre 1,75% e 2,75% para 2025, uma revisão para cima das estimativas anteriores. No terceiro trimestre de 2025, a economia cresceu 1,6% em relação ao ano anterior, após um aumento de 3,3% no trimestre anterior. A inflação foi registrada em 4,4% e o Banco Central almeja uma meta de 3% até 2026.

O comércio exterior chileno atingiu um recorde de US$ 10,4 bilhões em janeiro de 2025, um aumento de 10,4% em relação ao ano anterior. O setor de mineração registrou exportações no valor de US$ 4,8 bilhões, lideradas pelo cobre, com US$ 4,05 bilhões, um aumento de 15,8%. O Chile é o maior produtor e exportador mundial de cobre, respondendo por 27% da produção global, e possui, de longe, as maiores reservas desse metal, representando 40% do total mundial.

A importância estratégica do Chile para a transição energética global vai muito além do cobre. Depois da Austrália, o Chile é o segundo maior produtor mundial de lítio. Em 2023, a produção nacional atingiu 270.947 toneladas de equivalente de carbonato de lítio, um aumento de 4,3% em comparação com 2022 e de 120,5% em comparação com 2020. A projeção é de que a produção alcance 275.000 toneladas em 2025. 79% do suprimento de lítio refinado da UE tem origem no Chile. A capacidade de produção de lítio deverá aumentar de 42.000 toneladas em 2024 para 64.000 toneladas em 2030 e 79.000 toneladas em 2035. A receita com exportações de lítio deverá atingir US$ 7,3 bilhões em 2030 e US$ 8,9 bilhões em 2035, representando 2,2% e 2,7% do PIB, respectivamente, em 2024.

O Chile tem potencial para expandir sua cadeia de valor além da extração de matérias-primas. A produção de materiais catódicos, por si só, poderia gerar até US$ 1,1 bilhão em receita anual até 2030 e US$ 2,2 bilhões até 2035. O estabelecimento da produção de cátodos poderia criar de 900 a 1.700 empregos até 2030 e de 2.100 a 3.700 empregos até 2035.

 

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Livre comércio com 700 milhões de pessoas: Que oportunidades o acordo UE-Mercosul oferece para as PME alemãs?

A dinâmica econômica geral da região do Mercosul

A região econômica do Mercosul, composta por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, tem uma população de mais de 260 milhões de habitantes e é a quinta maior região econômica do mundo. O Produto Interno Bruto (PIB) combinado dos países do Mercosul totalizou aproximadamente US$ 2,9 trilhões em 2024, com o Brasil respondendo pela maior parcela, com US$ 2,18 trilhões, seguido pela Argentina com cerca de US$ 604 bilhões, Uruguai com US$ 82,5 bilhões e Paraguai com US$ 44,9 bilhões. Em 2024, os países do Mercosul juntos geraram aproximadamente 3,3% do PIB global ajustado pela paridade do poder de compra (PPC).

As previsões para o futuro próximo indicam um declínio contínuo, ainda que lento, da importância do Mercosul no contexto global. Sua participação no PIB mundial deverá atingir aproximadamente 3,2% até 2030. Em um ranking de países por sua participação no PIB mundial ajustado pela paridade do poder de compra, o Mercosul ficaria posicionado entre a Alemanha e a Rússia.

A perspectiva geral para a América Latina e o Caribe em 2025 é mista. O FMI reduziu sua previsão de crescimento para a região para 2%, ante 2,4% em 2024, com a queda atribuída principalmente ao México. Espera-se inclusive uma contração de 0,3% no México, devido ao impacto das tarifas americanas e às tensões geopolíticas. O FMI cita atividade econômica mais fraca do que o esperado, medidas tarifárias, incerteza e um ambiente de financiamento mais restritivo como razões para a perspectiva moderada.

O investimento estrangeiro direto na América Latina atingiu US$ 184 bilhões em 2024, um aumento de 30% em comparação com os níveis pré-pandemia. Os fluxos de investimento estão concentrados no Brasil (38%), México (24%), Chile (9%), Colômbia (7%) e Peru (4%). A União Europeia e os Estados Unidos continuam sendo os principais investidores, enquanto a China, o Japão e a Coreia do Sul estão aumentando sua participação nos setores de energia, mineração e logística.

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O acordo UE-Mercosul como um marco estratégico

As negociações sobre o acordo UE-Mercosul, concluídas em 6 de dezembro de 2024, marcam o fim, após 25 anos, de um dos mais longos processos de negociação da história dos acordos comerciais europeus. O acordo criaria uma área de livre comércio abrangendo mais de 700 milhões de pessoas e um mercado comum de aproximadamente 715 milhões de consumidores.

Em 2024, os países da UE exportaram mercadorias no valor aproximado de 55,6 mil milhões de euros para a região do Mercosul, enquanto as importações da América do Sul ascenderam a cerca de 56,7 mil milhões de euros. O défice comercial resultante da UE foi de 1,1 mil milhões de euros, após anos de excedentes comerciais consistentes. A Comissão Europeia estima que o acordo poderá aumentar as exportações anuais da UE para a América do Sul em até 39%, o equivalente a um aumento de 49 mil milhões de euros por ano.

O cerne do acordo reside na redução gradual de aproximadamente 90% das tarifas sobre o comércio bilateral. Os países do Mercosul atualmente aplicam algumas das tarifas mais altas do mundo: 35% sobre automóveis, de 14% a 20% sobre máquinas e até 18% sobre produtos químicos. O acordo eliminaria cerca de 90% dessas tarifas, podendo gerar uma economia de aproximadamente quatro bilhões de euros por ano para as empresas europeias.

O acordo é de particular importância para a economia alemã. Cerca de 12.500 empresas alemãs exportam para a região do Mercosul, das quais 72% são pequenas e médias empresas (PMEs). Segundo dados da UE, essas exportações garantem aproximadamente 244.000 empregos na Alemanha e 855.000 em toda a UE. O acordo poderá criar mais de 440.000 novos empregos na Europa.

O processo de ratificação é complexo. Em 9 de setembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou suas propostas para assinatura ao Conselho da UE e ao Parlamento Europeu. Para facilitar a adoção, a Comissão dividiu o Acordo de Associação em uma seção política e uma seção comercial. A seção comercial, portanto, não exige a aprovação de todos os parlamentos nacionais, mas apenas uma maioria qualificada no Conselho e o consentimento do Parlamento Europeu. Alguns Estados-Membros, incluindo França, Itália e Polônia, manifestaram preocupação com relação à proteção de seus setores agrícolas.

A estrutura comercial complementar como fundamento do benefício mútuo

As relações comerciais entre a UE e o Mercosul baseiam-se numa estrutura complementar, em que ambas as partes contribuem com as suas respectivas vantagens comparativas. A Europa fornece bens industriais, máquinas, produtos químicos e bens de consumo de alta qualidade, enquanto a América do Sul exporta produtos agrícolas, matérias-primas para a transição energética e, cada vez mais, vetores energéticos.

A indústria automotiva está entre as maiores beneficiárias do acordo no lado europeu. Com vendas anuais superiores a € 2,1 bilhões, a Alemanha já é a maior exportadora de carros e autopeças da UE para o Mercosul. Sua participação atual no mercado europeu é de 14%, e o acordo oferece um considerável potencial de crescimento. Em 2023, apenas 20.700 carros de passeio foram exportados da Alemanha para a Argentina e o Brasil, principalmente devido às tarifas proibitivas de 35%. A remoção dessa barreira abre perspectivas totalmente novas.

As tarifas atuais no setor de engenharia mecânica variam de 14% a 20%, enquanto para produtos químicos e farmacêuticos ficam entre 15% e 20%. O acordo concede às empresas alemãs acesso a licitações públicas nos países do Mercosul. Empresas de engenharia e tecnologia alemãs poderão impulsionar a modernização da infraestrutura.

O acordo também oferece oportunidades de exportação para o setor agrícola e alimentar europeu. Produtos europeus como vinho, queijo, azeite e chocolate poderão ter acesso mais fácil aos mercados do Mercosul, uma vez que as tarifas sobre esses produtos serão reduzidas ou eliminadas, em alguns casos em 20 a 35%. As exportações agrícolas e alimentares para os países do Mercosul poderão aumentar em quase 50%. O acordo protege 344 indicações geográficas da UE contra imitação e uso indevido.

Do outro lado está a indústria agrícola sul-americana. A soja é a principal commodity que a UE importa da América do Sul. Em 2019/2020, o Brasil foi o principal fornecedor de farelo de soja para a UE, representando 46% de suas importações. O acordo inclui medidas de salvaguarda para os produtores europeus de carne bovina, aves, açúcar, bioetanol, mel e arroz. Apenas 99.000 toneladas de carne bovina podem ser importadas anualmente com uma tarifa reduzida de 7,5%. A UE pode abrir imediatamente 82% do seu setor agrícola para produtos do Mercosul.

A dimensão estratégica das matérias-primas críticas

O fornecimento de matérias-primas essenciais para as transições energética e digital confere ao acordo UE-Mercosul uma dimensão estratégica que vai muito além dos interesses comerciais tradicionais. Das 34 matérias-primas essenciais na lista da UE, 25 são extraídas na América Latina. O acordo contribuirá substancialmente para garantir o fornecimento dessas matérias-primas, visto que os países do Mercosul são grandes produtores de muitas delas.

O Brasil é um fornecedor fundamental de diversas matérias-primas essenciais para a União Europeia. O país fornece 82% do nióbio necessário para a UE, utilizado na produção de aços de alta resistência e superligas, e domina 88,8% do processamento global. No caso do grafite natural, necessário para baterias e produção de aço, 13% das compras da UE provêm do Brasil, representando 7,5% da extração global. O Brasil também é um fornecedor significativo de alumínio/bauxita (12%), manganês (8%), silício (9%), vanádio (7%) e tântalo (16%).

A Argentina contribui com 6% do fornecimento de lítio da UE, representando 11% do processamento global. Com a terceira maior reserva de lítio do mundo, a Argentina tem potencial para expandir significativamente essa posição. O Chile, como parceiro associado nas relações comerciais com a UE, já fornece 79% do lítio refinado para a UE.

O regulamento da UE sobre matérias-primas críticas (CRMA) define metas ambiciosas: até 2030, pelo menos 10% do consumo anual de matérias-primas estratégicas deverá ser proveniente de fontes internas, 40% deverá ser proveniente de capacidades de processamento nacionais e 25% deverá ser reciclado. Não mais de 65% de qualquer matéria-prima estratégica deverá ter origem num único país terceiro. Dado que a UE depende fortemente da China para matérias-primas essenciais, como os elementos de terras raras, a diversificação das fontes de abastecimento é de importância estratégica.

Iniciativa de investimento Global Gateway da Europa na América Latina

A UE está a implementar uma estratégia de investimento abrangente para os países parceiros através da sua iniciativa Global Gateway, que desempenha um papel central na América Latina. Na Cimeira UE-América Latina, em julho de 2023, a UE anunciou uma meta de investimento de 45 mil milhões de euros até 2027. A América Latina e as Caraíbas tornaram-se a segunda região prioritária da Global Gateway em 2024. Um total de 53 projetos emblemáticos foram selecionados para o período de 2023 a 2025.

A estratégia Global Gateway visa colmatar as lacunas de infraestruturas e expandir de forma sustentável as parcerias. De acordo com as estimativas do G20, serão necessários cerca de 13 biliões de euros até 2040 para colmatar as lacunas de infraestruturas a nível global. A Global Gateway apresenta-se como uma proposta justa e sustentável, sem dependências ocultas, diferenciando-se da Iniciativa Cinturão e Rota da China.

No setor energético, a UE está promovendo o desenvolvimento da capacidade de produção de hidrogênio na América Latina. De acordo com o Instituto Fraunhofer de Sistemas de Energia Solar, até 2030 a Alemanha poderá obter produtos Power-to-X a um custo menor do Brasil, da Austrália e do norte da Colômbia do que de qualquer outro lugar do mundo. Com base em projetos anunciados, a América Latina poderá produzir mais de 7 milhões de toneladas de hidrogênio de baixa emissão por ano até 2030. Chile, Colômbia e Brasil estão entre os pioneiros no desenvolvimento de uma economia baseada no hidrogênio.

O Banco Europeu de Investimento (BEI) Global é um parceiro fundamental no Global Gateway e tem como objetivo mobilizar 100 mil milhões de euros em investimentos até ao final de 2027. A estratégia Global Gateway já mobilizou mais de 306 mil milhões de euros em apenas quatro anos.

Sinergias e cadeias de valor entre as duas áreas econômicas

As sinergias potenciais entre a UE e o Mercosul vão além do mero comércio e incluem o desenvolvimento de cadeias de valor conjuntas. No setor energético, a combinação da experiência tecnológica europeia com a riqueza de recursos da América do Sul oferece um potencial considerável.

A formação Vaca Muerta, na Argentina, poderá contribuir para o fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) à Europa, reduzindo ainda mais sua dependência do gás russo. O projeto Southern Energy LNG, com capacidade de 6 milhões de toneladas por ano, e a parceria YPF-Shell, com capacidade planejada de 10 milhões de toneladas, poderão tornar a Argentina um importante exportador de gás. As importações de gás natural da Argentina já diminuíram em aproximadamente 60%.

No campo do hidrogênio verde, o nordeste do Brasil oferece condições ideais para o abastecimento da Europa. A UE está promovendo Parques de Energia Verde na região com o objetivo de garantir contratos de compra de energia e anunciar as decisões finais de investimento na COP 30, a cúpula do clima no Brasil. As condições naturais da América Latina são excelentes para todas as energias renováveis; atualmente, mais de 60% da eletricidade da região provém de fontes renováveis.

A cadeia de valor das baterias oferece um potencial particular para cooperação. O Chile poderia ir além da mera extração de lítio e assumir o processamento do lítio em material catódico, o que geraria receitas e empregos significativos. A UE selecionou 13 projetos estratégicos de matérias-primas em países terceiros, incluindo nove para materiais críticos para baterias, como grafite, lítio, cobalto, níquel e manganês.

A transferência de tecnologia da Europa para a América do Sul pode contribuir para a modernização da indústria latino-americana. As empresas alemãs são líderes tecnológicas em digitalização, desenvolvimento urbano, proteção ambiental e climática, bem como em energias renováveis ​​e eficiência energética. Em contrapartida, a Europa ganha acesso a mercados e matérias-primas essenciais para a sua própria transformação industrial.

Desafios e riscos da parceria

O acordo UE-Mercosul enfrenta desafios significativos que podem comprometer sua plena implementação. Os agricultores europeus se opõem à esperada inundação de produtos agrícolas baratos provenientes da América do Sul. Os países do Mercosul possuem vastas áreas agrícolas e custos de produção mais baixos, o que lhes confere uma vantagem competitiva. Os agricultores europeus, sujeitos a padrões ambientais e sociais mais rigorosos, podem ter dificuldades para competir com esses preços.

Organizações ambientalistas criticam o potencial impacto no desmatamento na América do Sul. Se a redução das tarifas diminuir o preço da carne bovina, a demanda e, consequentemente, a produção inevitavelmente aumentarão. O desmatamento na América do Sul já atingiu proporções alarmantes, e o acordo pode acelerar essa destruição. Segundo a Comissão Europeia, as importações de carne bovina da UE provenientes da América do Sul podem aumentar em até 64%.

O acordo inclui compromissos de sustentabilidade e disposições para combater o desmatamento, mas ambientalistas criticam sua falta de aplicabilidade. Um mecanismo permite que os parceiros comerciais imponham tarifas punitivas caso as regulamentações ambientais sejam percebidas como prejudiciais aos seus interesses comerciais. A regulamentação da UE sobre desmatamento pode onerar os exportadores brasileiros e diminuir os benefícios comerciais.

A volatilidade política na América do Sul representa um risco adicional. O sucesso da Argentina sob o governo Milei depende fortemente de fatores externos: preços das commodities, fluxos de capital e a taxa de câmbio do dólar americano. Uma desaceleração econômica global ou tensões geopolíticas poderiam rapidamente impedir o progresso. As eleições para o Congresso argentino, em outubro de 2025, são consideradas um teste de resistência para o governo Milei. A situação fiscal do Brasil permanece frágil, com uma dívida pública de quase 78% do PIB e um déficit orçamentário de 8% do PIB.

Perspectivas para a cooperação econômica até 2030

A cooperação econômica entre a Europa e a América do Sul está entrando em uma década marcada por profundas mudanças. A transformação dos sistemas energéticos globais, o crescente protecionismo em outras regiões econômicas e a necessidade de diversificar as cadeias de suprimentos estão criando condições que favorecem uma parceria mais estreita.

A Comissão Europeia estima que a plena implementação do acordo Mercosul teria o potencial de criar aproximadamente 440.000 novos empregos na Europa. A economia tarifária para as empresas europeias, estimada em cerca de quatro bilhões de euros anualmente, aumentaria significativamente a competitividade dos produtos europeus nos mercados sul-americanos.

Para a América do Sul, a parceria com a Europa oferece uma alternativa à sua crescente dependência da China. Embora a China tenha se tornado o parceiro comercial mais importante do Brasil, os governos latino-americanos reclamam que os investimentos são anunciados, mas não se concretizam, e que a China não está abrindo seus mercados para produtos tecnológicos latino-americanos. O acordo UE-Mercosul poderia servir como um contrapeso e fortalecer a posição de negociação dos Estados sul-americanos.

A parceria estratégica para matérias-primas ganhará ainda mais importância, visto que a UE prevê um aumento de dez vezes na demanda por lítio até 2030 e de vinte vezes até 2050. Os países do Mercosul, com suas enormes reservas de lítio, cobre, nióbio e outros materiais críticos, são parceiros indispensáveis ​​para a transição energética europeia. O desenvolvimento de capacidades de processamento locais beneficiaria ambos os lados: a América do Sul, por meio do aumento da criação de valor, e a Europa, por meio de cadeias de suprimentos mais curtas e diversificadas.

As parcerias em hidrogênio verde podem se tornar a base de um fornecimento de energia sustentável. A América Latina, com suas excelentes condições naturais para energias renováveis, pode se tornar o fornecedor mais importante de hidrogênio verde e seus derivados para a Europa. A Alemanha está promovendo ativamente o aumento da produção de hidrogênio com mais de 20 parcerias bilaterais, incluindo uma com o Brasil.

O futuro da parceria depende, em última análise, da possibilidade de equilibrar os interesses de ambas as partes. A Europa precisa de matérias-primas, energia e novos mercados. A América do Sul precisa de tecnologia, investimento e acesso a mercados. O acordo UE-Mercosul oferece a estrutura para uma cooperação que vai além do comércio tradicional Norte-Sul e pode viabilizar uma verdadeira parceria em termos de igualdade. A concretização desse potencial dependerá, nos próximos anos, das medidas concretas de implementação e da vontade política de ambos os lados do Atlântico.

 

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