O Estado-nação em crise permanente: A grande alienação – Por que cada vez mais cidadãos estão perdendo a fé naqueles que detêm o poder
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Xpert.Digital bei Google bevorzugenⓘPublicado em: 23 de fevereiro de 2026 / Atualizado em: 23 de fevereiro de 2026 – Autor: Konrad Wolfenstein

O Estado-nação em crise perpétua: A grande alienação – Por que cada vez mais cidadãos estão perdendo a fé naqueles que detêm o poder – Imagem: Xpert.Digital
A Grande Alienação: Por que 52% dos cidadãos se sentem politicamente impotentes
O tema tabu da migração: por que justamente os imigrantes bem integrados estão exigindo uma mudança radical?
Entre a paralisia das reformas, a perda de identidade e o fracasso das alternativas políticas
O Estado-nação é visto por muitos como um modelo ultrapassado – pequeno demais para as crises globais de nossa época e pesado demais para o rápido desenvolvimento de um mundo digitalmente interconectado. Mesmo assim, nos apegamos a ele, simplesmente por falta de alternativas viáveis. Mas o preço dessa adesão está se tornando cada vez mais tangível para os cidadãos em seu cotidiano: uma burocracia crescente que custa bilhões à economia anualmente, uma estagnação econômica gradual e uma profunda sensação de impotência política.
Embora a política ainda pense segundo os paradigmas clássicos de esquerda e direita, a sociedade já se transformou há muito tempo. Em novas linhas de fratura, cresce uma enorme desconfiança em relação às elites – uma alienação que permeia todas as camadas sociais e, paradoxalmente, afetou até mesmo aqueles com histórico de migração. Na tentativa de gerir a tensão insolúvel entre participação democrática, economia global e soberania nacional, a política recorre a um número cada vez maior de regulamentações. O resultado é uma perigosa erosão da confiança pública. Esta análise ilumina a verdadeira extensão da estagnação institucional e explora a questão crucial: como recuperar a capacidade de ação democrática antes que o Estado perca completamente sua legitimidade?
Por que os alicerces do Estado moderno estão ruindo e ninguém tem a coragem de construir um novo?
O fim da esquerda e da direita: os novos conflitos que estão realmente dividindo nossa sociedade
A ideia do Estado-nação como arcabouço regulatório para processos econômicos, sociais e culturais vem sendo atacada há décadas. À esquerda, é criticada como uma relíquia ultrapassada que emperra a economia globalizada. À direita, é defendida como um bastião ameaçado de uma comunidade culturalmente homogênea. Ambos os lados captaram partes da verdade, mas nenhum apresentou ainda um modelo alternativo viável que possa enfrentar os complexos desafios do século XXI. Na prática, o Estado-nação demonstra uma resiliência notável, mesmo quando suas fragilidades institucionais se tornam cada vez mais evidentes. A verdadeira crise reside não no conceito em si, mas na incapacidade da classe política de adaptar esse conceito a uma realidade transformada sem comprometer sua legitimidade democrática.
O triângulo insolúvel: democracia, soberania e interconexão global
O economista de Harvard, Dani Rodrik, com seu trilema político da economia global, criou uma ferramenta analítica que identifica a superextensão estrutural do Estado-nação. Sua conclusão é que democracia, autodeterminação nacional e globalização econômica completa são incompatíveis. Apenas dois desses três objetivos podem ser alcançados simultaneamente. Na segunda metade do século XX, os Estados ocidentais sacrificaram aspectos da globalização em favor da democracia e da autonomia nacional, o que levou a um período de prosperidade sem precedentes. Nas últimas três décadas, essa relação se inverteu: a globalização e a autonomia nacional foram priorizadas, enquanto a participação democrática foi cada vez mais corroída.
Esta descoberta vai muito além de um exercício acadêmico. Ela explica por que, em quase todas as democracias ocidentais, uma parcela crescente da população se sente desconectada dos processos de tomada de decisão política. Na Alemanha, a pesquisa Allensbach revela uma tendência dramática: enquanto a proporção daqueles que afirmaram ter influência como cidadãos em assuntos locais aumentou de 22% para 47% entre 1992 e 2021, esse número caiu para 29% em 2023. Simultaneamente, os sentimentos de impotência aumentaram de 30% para 52%. Na Alemanha Oriental, 63% relataram sentir-se impotentes como cidadãos. A conclusão prática de Rodrik é abandonar a hiperglobalização como um objetivo político desejável, a fim de preservar a coesão social criada pelo Estado-nação e pela democracia. Se essa proposta ainda é viável na era dos fluxos de capital digital e das cadeias de valor globais permanece uma das principais questões em aberto de nosso tempo.
A resiliência surpreendente de uma instituição que se acreditava estar morta
Apesar de todas as críticas, o Estado-nação não só não desapareceu, como seu número multiplicou-se drasticamente. Entre 1946 e 2018, o número de Estados em todo o mundo aumentou de 74 para 202. A tese contundente do economista de Harvard, Alberto Alesina, afirma que a integração econômica leva à desintegração política: mercados mais abertos, menos guerras e mais democracia permitem que entidades menores se beneficiem da divisão internacional do trabalho sem ter que pagar o preço da adesão forçada a entidades maiores. Esse desenvolvimento empírico contradiz a tese de que o Estado-nação está se tornando obsoleto. Na verdade, o oposto é evidente, especialmente em tempos de crise: durante a crise financeira de 2008, não foram o FMI, o G20 ou a Comissão Europeia que evitaram o pior, mas sim os Estados-nação em conjunto com seus bancos centrais.
As instituições supranacionais têm demonstrado, até o momento, uma fragilidade estrutural que as torna inviáveis como alternativa. A OMC enfrenta um impasse sistêmico há anos, o Banco Mundial e o FMI perderam influência, e até mesmo a União Europeia luta contra um déficit democrático crônico que mina sua legitimidade perante os cidadãos. Segundo economistas críticos, a experiência da chamada governança global, com sua livre circulação de capitais e pessoas, enfraqueceu a democracia e concentrou o poder nas mãos de alguns bilionários e dos mercados de capitais. Além disso, como demonstram repetidamente as pesquisas, a maioria da população prefere a identidade nacional a um modelo supranacional.
O gigante administrativo: como a burocracia se tornou um fim em si mesma
Talvez o sintoma mais tangível da estagnação institucional do Estado-nação seja a expansão de seu aparato administrativo. A Alemanha é considerada um país altamente burocrático por um bom motivo. De acordo com uma pesquisa da Allensbach de 2023, 80% da população acredita que a República Federal está se prejudicando com o excesso de burocracia. 71% dos cidadãos afirmaram ter se sentido incomodados com o excesso de burocracia em repartições e agências governamentais nos últimos cinco anos, em comparação com apenas 48% em 2007. Esses números não refletem meramente sentimentos subjetivos. Os custos anuais da burocracia para a economia chegaram a cerca de 67 bilhões de euros em 2024, aproximadamente 17 bilhões de euros a mais do que em 2018, quando atingiram 50 bilhões de euros. O Instituto ifo chegou a quantificar o prejuízo econômico total causado pelo excesso de burocracia em 146 bilhões de euros por ano em perda de produção econômica.
Um paradoxo particularmente revelador emerge: em comparação internacional, o aparato administrativo alemão não é particularmente grande em termos de número de funcionários. O verdadeiro problema reside no enorme volume de regulamentos, obrigações de informação, requisitos de documentação e procedimentos de aprovação que sobrecarregam cidadãos e empresas. Sabine Kuhlmann, membro do Conselho Nacional de Controle Regulatório, descreve o mecanismo da seguinte forma: os políticos tentam resolver problemas novos e complexos com um número cada vez maior de regulamentos, enquanto buscam a máxima justiça individual, tudo isso inserido em estruturas federais complexas e uma cultura administrativa altamente legalista. O resultado são regulamentos mal elaborados que não funcionam na prática e exacerbam ainda mais o problema burocrático. A criação de um Ministério independente para Assuntos Digitais e Modernização do Setor Público, sob o governo do Chanceler Friedrich Merz, é uma admissão do problema, mas também uma prova da reação instintiva dos políticos: quando as abordagens tradicionais falham, cria-se um novo ministério.
Nesse emaranhado de regulamentações, os campos políticos se instalaram confortavelmente. A burocracia cria dependências, responsabilidades e estruturas de distribuição que garantem a sobrevivência tanto da própria administração quanto dos atores políticos que a controlam. Cada novo complexo regulatório exige pessoal, orçamento e ancoragem institucional. Como resultado, a burocracia se reproduz constantemente. Todos os governos, por pelo menos duas décadas, prometeram reduzir a burocracia, mas o sucesso tem sido, em grande parte, inconclusivo. O antigo problema da autorreferencialidade burocrática, em que a regulamentação gera mais regulamentação, atingiu um ponto que alguns municípios já descrevem como uma emergência burocrática. Cada vez mais cidadãos se perguntam a quem esse aparato realmente serve. Para muitos, a resposta é preocupante.
A nova arquitetura do conflito: divisão vertical em vez de campos horizontais
A divisão tradicional dos conflitos políticos em um espectro esquerda-direita está perdendo cada vez mais seu poder explicativo. A clássica teoria das clivagens de Lipset e Rokkan, de 1967, identificou quatro linhas fundamentais de conflito nas sociedades europeias: capital versus trabalho, igreja versus estado, cidade versus campo e centro versus periferia. Embora essas linhas de conflito não tenham perdido totalmente sua relevância, elas estão sendo sobrepostas por uma nova linha de tensão que se baseia menos em filiações partidárias tradicionais do que em experiências vividas e sentimentos de pertencimento.
Em seu aclamado estudo "Pontos de Desencadeamento" (Trigger Points), os sociólogos Steffen Mau, Thomas Lux e Linus Westheuser identificaram quatro principais arenas de conflito da atualidade: elite versus base na área da desigualdade socioeconômica; dentro versus fora em relação a questões de afiliação nacional; nós versus eles nos debates sobre identidade; e hoje versus amanhã no debate climático. Sua principal conclusão é que não se observa uma polarização clara em nenhuma dessas áreas. Em vez disso, existe um amplo consenso básico no centro da sociedade. A impressão de uma sociedade dividida surge principalmente da ênfase excessiva, tanto política quanto midiática, em debates específicos, impulsionada pelos chamados empreendedores da polarização.
Para além da análise acadêmica, porém, duas dinâmicas de grupo distintas emergiram na prática política, menos facilmente compreendidas pelas categorias clássicas de esquerda e direita do que por suas respectivas narrativas de formação de identidade. Um grupo se organiza em torno do tema: nós aqui embaixo contra eles lá em cima. Sua principal preocupação é a justiça social, a crítica à desigualdade econômica e a percepção de que uma elite alheia à realidade toma decisões contrárias aos interesses da população em geral. O outro grupo se forma em torno do tema: nós aqui dentro contra eles lá fora. Sua preocupação é a proteção das conquistas, a identidade cultural e a demarcação em relação à imigração ou à globalização, percebidas como ameaças.
Apesar das diferenças de conteúdo, ambos os grupos compartilham uma característica estrutural comum: uma profunda desconfiança nas instituições e elites que representam. O cientista político Florian Hartleb demonstrou, há anos, que o populismo não é um fenômeno exclusivo da direita política, mas também aparece em formas comparáveis na esquerda. Ambas as variantes adotam posições anti-establishment e se concentram em questões que mobilizam as massas. A motivação anti-establishment, a oposição "aos que estão no poder", é estruturalmente idêntica, mesmo que as demandas específicas possam ser diametralmente opostas.
A terceira perspectiva: de cima para baixo e o potencial de desconfiança para criar laços com os outros
Além das duas dinâmicas de grupo mencionadas, existe um terceiro nível de percepção, que pode ser inicialmente categorizado como teoria da conspiração: a ideia de "nós contra eles", ou seja, a suposição de que um pequeno e poderoso grupo está agindo deliberadamente contra os interesses da população. Essa perspectiva poderia ser facilmente descartada como um fenômeno marginal se não se estendesse empiricamente muito mais profundamente na sociedade do que o debate público sugere.
Segundo o estudo "Mitte" de 2019 da Fundação Friedrich Ebert, 46% da população alemã acreditava que organizações secretas exerciam influência significativa sobre as decisões políticas. Trinta e três por cento acreditavam que políticos e outros líderes eram meros fantoches de poderes obscuros. Vinte e quatro por cento estavam convencidos de que a mídia e a política estavam em conluio. Uma pesquisa realizada como parte do Monitor de Religião da Statista revelou que apenas 45% dos entrevistados afirmaram não acreditar em nenhuma das teorias da conspiração apresentadas, enquanto cerca de 36% concordavam, pelo menos parcialmente, com dois ou mais mitos conspiratórios. A Fundação Bertelsmann constatou, em 2025, que, embora a crença em teorias da conspiração estivesse diminuindo ligeiramente no geral, a desconfiança política havia aumentado. Os dados não revelam um perfil socioeconômico claro dos teóricos da conspiração, o que é justamente o que torna esse fenômeno tão singular e perigoso: ele ressoa em uma ampla gama de grupos sociais.
Essas descobertas são de considerável importância. A percepção de que "os que estão no topo" estão agindo contra "os que estão na base" não é um problema típico restrito às franjas extremistas. Ela existe subliminarmente em todo o espectro da sociedade, às vezes mais pronunciada, às vezes menos, às vezes racionalmente fundamentada em experiências compreensíveis de impotência democrática, às vezes irracionalmente carregada por teorias da conspiração. O historiador Nikolai Wehrs apontou que o conceito de establishment era inerentemente simplista desde o início e sempre carregou um quê de teoria da conspiração: "Os que estão no topo estão todos em conluio". Historicamente, pode-se demonstrar que esse termo é usado por ambos os extremos políticos, esquerda e direita, contra a democracia liberal. Há algum tempo, as elites na política e na sociedade vêm sofrendo uma perda de reputação. Nas democracias ocidentais do pós-guerra, elas ainda eram consideradas agentes indispensáveis do desenvolvimento progressista. Nos tempos atuais de crise, são mais frequentemente percebidas como gestoras de crise sobrecarregadas.
Em uma análise publicada no início de 2026, a Fundação Konrad Adenauer identificou claramente este problema: a divisão social não atravessa o centro da sociedade, mas sim se dá entre uma elite intelectual que domina os meios de comunicação e a vasta maioria da população, uma parcela crescente da qual sente que suas necessidades não estão mais sendo consideradas. Essa polarização crescente não é uma dor fantasma. É a consequência lógica de um sistema político que deriva cada vez mais sua legitimidade da expertise tecnocrática em vez do feedback democrático. Ambas as lógicas de grupo descritas anteriormente — a crítica social da base versus o topo e a demarcação baseada na identidade entre dentro e fora — encontram um ponto em comum na percepção de uma contra-elite que age conscientemente. O que é descartado como teoria da conspiração muitas vezes se revela, após uma análise mais aprofundada, um processamento distorcido, porém totalmente compreensível, de experiências reais de impotência e controle por outros.
Nossa experiência na UE e na Alemanha em desenvolvimento de negócios, vendas e marketing

Nossa experiência na UE e na Alemanha em desenvolvimento de negócios, vendas e marketing - Imagem: Xpert.Digital
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A divisão esquecida: por que os antigos imigrantes temem a nova imigração
A migração como uma lupa: a cisão esquecida dentro da comunidade imigrante
O debate sobre migração revela uma dimensão da tensão social que é quase totalmente ignorada no discurso público: o crescente ceticismo de pessoas com histórico de migração que vivem na Alemanha há décadas e construíram suas vidas aqui, em relação a novas formas de migração. Uma pesquisa da YouGov encomendada pelo jornal "Welt am Sonntag" constatou que 40% dos alemães com histórico de migração acreditam que a Alemanha deveria aceitar menos refugiados do que aceitava na época de sua chegada. Vinte e quatro por cento dos imigrantes chegaram a afirmar que nenhum refugiado deveria ser admitido no país. As diferenças entre alemães com e sem histórico de migração não são estatisticamente significativas nessa questão.
Wolfgang Kaschuba, então diretor do Instituto de Berlim para Pesquisa Empírica sobre Integração e Migração, descreveu essa situação como um efeito de integração interessante, porém não intencional: sempre que novos imigrantes chegam, aqueles que chegaram primeiro se sentem menos estrangeiros. Os recursos são escassos e as pessoas que participam da sociedade alemã há décadas, assim como a população nativa, tendem a se perguntar se tudo está se tornando demais e se terão que compartilhar o que conquistaram. Em 2024, a Fundação Bertelsmann confirmou que 78% dos entrevistados esperavam um aumento nos custos do estado de bem-estar social devido à imigração, 74% temiam a escassez de moradias e 71% estavam preocupados com problemas nas escolas. Esse ceticismo crescente não se devia principalmente a uma atitude negativa em relação aos imigrantes, mas sim a preocupações com a capacidade econômica e social para uma recepção e integração bem-sucedidas.
Para pessoas com um histórico de migração mais antigo, soma-se a essas preocupações gerais um medo específico: o de serem associadas às consequências negativas das recentes tendências migratórias. Aqueles que se integraram ao longo de décadas, pagaram impostos, adquiriram propriedades e educaram seus filhos em escolas alemãs sentem-se agrupados com grupos populacionais completamente diferentes em debates abrangentes sobre integração ou crimes migratórios. Essas pessoas não pertencem nem ao campo progressista, que rotula qualquer crítica à migração como racismo, nem ao campo nacionalista, que retrata a migração como uma ameaça existencial. Encontram-se em uma terra de ninguém discursiva, onde suas experiências e preocupações não são adequadamente representadas por nenhum dos lados. A dimensão demográfica agrava o problema: em 2010, 1,5 milhão, ou 9,4%, das pessoas com histórico de migração tinham 65 anos ou mais. Espera-se que esse número suba para 15% no início da década de 2030. Esse grupo crescente de migrantes mais velhos, cujas intenções de retornar aos seus países de origem geralmente não se concretizam e que permanecem permanentemente na Alemanha, não encontra um lugar apropriado no debate político.
A estagnação econômica como catalisador para a alienação
Segundo o Conselho Alemão de Especialistas em Economia, a República Federal da Alemanha enfrentará estagnação econômica em 2025, após uma recessão em 2023 e 2024. Essa fragilidade atual é causada não apenas por fatores cíclicos, mas também por profundas mudanças estruturais e alterações geopolíticas que ameaçam o modelo de exportação alemão. O Conselho prevê um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ajustado pela inflação, de apenas 0,2% em 2025 e 0,9% em 2026. Essa fragilidade econômica não é meramente um problema estatístico; ela cria um terreno fértil para a desconfiança nas instituições e nas elites.
Quando o bolo para de crescer, os conflitos de distribuição se intensificam. A preocupação do público em geral com seu futuro econômico é real e mensurável. Os custos burocráticos de € 67 bilhões por ano são apenas a ponta do iceberg de ineficiências estruturais que estão se transformando em uma desvantagem competitiva. De acordo com o Instituto ifo, se a Alemanha alcançasse a Dinamarca na digitalização de sua administração pública, sua produção econômica seria € 96 bilhões maior anualmente. Esses números ilustram a dimensão das oportunidades perdidas. Ao mesmo tempo, a dívida pública está aumentando e, segundo cálculos do Conselho Alemão de Especialistas Econômicos, poderá ultrapassar 85% do PIB até 2035 se os recursos do fundo especial para infraestrutura e defesa forem usados para consumo em vez de investimento.
As políticas comerciais protecionistas e erráticas dos EUA sob Donald Trump estão prejudicando ainda mais o crescimento econômico global e forçando a economia alemã, voltada para a exportação, a fazer ajustes dolorosos. Em um ambiente de incerteza econômica como esse, as pessoas buscam explicações e bodes expiatórios. A questão de saber se a política nacional ainda possui alguma capacidade de agir, ou se está presa em uma teia de dependências supranacionais e mecanismos do mercado global, está se tornando crucial para a legitimidade do Estado-nação. Muitos cidadãos percebem a resposta política — de que é preciso aguardar acordos internacionais antes de se empreender reformas nacionais — como uma manobra evasiva.
O caminho singular da Europa: entre o aprofundamento e a desintegração
A União Europeia representa a tentativa mais ambiciosa de transformar o Estado-nação em uma ordem supranacional. Os resultados são mistos. Por um lado, análises baseadas em modelos, realizadas pelo Conselho de Peritos Econômicos, mostram que um maior aprofundamento do mercado único da UE, por meio da redução das barreiras comerciais, poderia aumentar o produto interno bruto real da União Europeia em uma medida significativamente maior do que a alcançada pelas medidas de integração tomadas até o momento. Um obstáculo fundamental reside na insuficiente integração dos mercados de capitais europeus. Por outro lado, o processo de centralização, que foi ainda mais acelerado pela União Monetária Europeia, tem corroído cada vez mais os mecanismos democráticos de retroalimentação da soberania nacional.
Um contramovimento formou-se com a chamada Nova Liga Hanseática, um grupo de Estados-membros da UE, incluindo a Irlanda, os Países Baixos, os Estados Bálticos e os países escandinavos, que se uniram contra o domínio franco-alemão. O seu objetivo é uma reorganização da distribuição vertical de competências: apenas as tarefas que trazem um verdadeiro valor acrescentado à União Europeia devem ser da responsabilidade da Comissão Europeia. Além disso, as competências que atualmente se encontram a nível da UE e que geram ineficiências devem ser transferidas de volta para os Estados-nação. Esta luta pela distribuição de competências entre os níveis nacional e supranacional é mais do que uma disputa institucional. Trata-se da questão de em que nível a legitimidade democrática pode ser estabelecida de forma mais eficaz.
O economista Werner Vontobel resumiu a questão de forma sucinta: a experiência de governança global com livre circulação de capitais e liberdade de movimento fracassou espetacularmente. Está produzindo bilionários cada vez mais poderosos, destruindo a prosperidade de outros, minando a democracia e pondo em risco a paz social. Essa avaliação pode ser exagerada, mas encontra eco em uma população que esperava maior prosperidade e segurança com a integração europeia e agora descobre que os benefícios estão sendo distribuídos de forma muito desigual.
A polarização da impotência: por que o centro permanece em silêncio
O estudo sociológico "Pontos de Desencadeamento" revelou que a classe média em geral está amplamente livre de restrições ideológicas e possui apenas uma fraca filiação a partidos políticos, o que enfraquece sua capacidade de mobilização e expressão. A formação de conflitos na esfera pública ocorre principalmente nas margens, criando a falsa impressão de que a sociedade está se dividindo em campos antagônicos. Um estudo da Universidade Livre de Berlim refutou empiricamente a suposição generalizada de uma polarização estrutural entre a classe média progressista e instruída e o proletariado marginalizado. Embora os operários sejam, em média, mais críticos da imigração e da União Europeia do que os trabalhadores altamente qualificados, a diversidade de opiniões dentro dos grupos ocupacionais é tão grande que falar em uma polarização homogênea está fora de questão.
Contudo, o diagnóstico de ausência de polarização é insuficiente. O verdadeiro problema não reside numa divisão do centro, mas sim no seu silenciamento. Quando 52% da população se sente politicamente impotente, quando a burocracia é vista como um muro intransponível entre o cidadão e o Estado, e quando os partidos estabelecidos parecem variações intercambiáveis do mesmo problema, cria-se um vácuo que é preenchido por aqueles que gritam mais alto. As duas dinâmicas de grupo descritas — a narrativa social de baixo para cima e a narrativa identitária de dentro para fora — ganham força não porque representam a opinião da maioria, mas porque a própria maioria já não consegue encontrar uma voz.
A ciência política fala de uma nova linha de conflito que não pode mais ser localizada ao longo das clássicas linhas de fratura socioeconômicas ou religioso-culturais, mas sim na questão de se considerar vencedor ou perdedor da modernização. Essa linha de conflito atravessa todas as classes sociais, todos os meios e todas as faixas etárias. Não é idêntica à linha divisória entre ricos e pobres, entre cidade e campo, ou entre alemães com e sem histórico de migração. Em vez disso, marca a fronteira entre aqueles que sentem que ainda têm acesso às estruturas de tomada de decisão e aqueles que se sentem deixados para trás, independentemente de sua real posição socioeconômica.
Nem reforma nem revolução: o dilema do planejamento político
A principal tragédia da situação atual reside no fato de que tanto os defensores quanto os críticos do Estado-nação se entrincheiraram em suas respectivas posições. Os nacionalistas se entregam a uma idealização romantizada de uma época que jamais existiu nessa forma. Os cosmopolitas propagam uma ordem supranacional para a qual não existem nem os pré-requisitos institucionais nem a legitimidade democrática. Preso no meio disso tudo, encontra-se um centro pragmático que não acredita em nenhuma das duas visões, mas é incapaz de formular a sua própria.
O jornalista suíço Rainer Hank captou a essência do problema em um único termo: renda soberana. No auge dos Estados-nação, as grandes nações ofereciam mercados econômicos maiores e maior segurança militar. O preço era frequentemente uma renda soberana ditatorial, o retorno que os atores políticos obtêm do controle que exercem sobre o aparato estatal. Nas democracias modernas, essa renda soberana tornou-se mais sutil, mas persiste: na forma de responsabilidades burocráticas que garantem empregos, na forma de complexidade regulatória que alimenta as empresas de consultoria e na forma de sistemas de transferência que criam dependências. O inchado aparato administrativo não é resultado de um plano consciente, mas sim o produto de um processo de auto-reforço no qual cada ator defende sua posição e toda reforma deve esperar resistência dentro do próprio sistema.
O debate sobre o Estado-nação torna-se, portanto, um debate simulado. Nem a sua abolição nem a sua restauração nostálgica são opções realistas. O que falta é uma análise sóbria de quais tarefas podem ser cumpridas com maior eficiência e legitimidade democrática em cada nível. A resposta não será uniforme: alguns problemas exigem cooperação global, outros governança nacional e outros ainda autonomia regional. O verdadeiro desafio reside em conceber um sistema multinível suficientemente flexível para responder adequadamente a diferentes situações problemáticas sem sacrificar o controle democrático. Até agora, tal alternativa não se consolidou em lugar nenhum. O Estado-nação permanece a opção padrão, um mal conhecido que se mantém porque a solução melhor, ainda desconhecida, ainda não foi inventada.
Confiança como recurso escasso: a verdadeira moeda da crise
Todos os fenômenos descritos — rigidez burocrática, alienação social, desconfiança nas elites, tensões dentro da população migrante e estagnação econômica — apontam para uma base comum: a erosão da confiança social. A confiança é o alicerce invisível de toda democracia funcional e de toda economia de alto desempenho. Quando os cidadãos acreditam que o Estado representa seus interesses, eles pagam impostos, cumprem as leis e aceitam até mesmo decisões que não lhes sejam convenientes. Quando essa confiança se deteriora, inicia-se a erosão de toda a estrutura institucional.
Em 2025, a Fundação Bertelsmann constatou um aumento na desconfiança política na Alemanha, embora a crença em teorias da conspiração tenha diminuído ligeiramente no geral. Essas descobertas aparentemente contraditórias podem ser resolvidas ao distinguir entre a crença irracional em teorias da conspiração e a desconfiança política racional. Esta última não é alimentada pela paranoia, mas por experiências concretas: a sensação de não ser ouvido nas decisões políticas, a observação de que a lacuna entre as promessas políticas e sua implementação real está aumentando e a percepção de que os custos das crises e das mudanças estruturais são distribuídos de forma desigual. O fato de 87% da população acreditar que o Estado deve garantir que os refugiados possam trabalhar rapidamente demonstra que a maioria está, de fato, aberta a soluções pragmáticas quando sente que suas preocupações são levadas a sério.
Reconstruir a confiança exige mais do que estratégias de comunicação ou gestos simbólicos. Exige uma reforma estrutural da relação entre Estado e cidadão: menos regulamentação, mais transparência, processos decisórios mais ágeis e uma política que não despolitize suas decisões invocando restrições internacionais, mas que, ao contrário, explicite as considerações subjacentes. O Estado-nação pode cumprir essa tarefa, mas somente se abandonar a ilusão de que a governança pode ser alcançada por meio de regulamentações cada vez mais rigorosas. Em vez disso, o foco deve estar na restauração da autonomia democrática, na capacidade não apenas de regular problemas, mas de resolvê-los.
O vazio da modernidade: por que não há um sucessor à vista?
Talvez a característica mais reveladora do debate atual seja a falta de resultados. Há décadas, o Estado-nação é considerado obsoleto, sem que surja uma alternativa convincente. A União Europeia, em sua forma atual, é mais um sintoma do problema do que sua solução. As estruturas de governança global estão muito aquém das necessidades. Os modelos de autonomia regional funcionam em sociedades pequenas e homogêneas, mas dificilmente são transferíveis para as condições complexas de uma economia com 84 milhões de habitantes.
O cerne do dilema reside no fato de o Estado-nação ser simultaneamente grande demais e pequeno demais: grande demais para as diferenças locais e regionais que exigem políticas diferenciadas, e pequeno demais para os desafios globais que tornam ineficaz a ação nacional unilateral. Operando dentro dessa tensão, encontra-se um sistema político entrincheirado em um aparato burocrático que prioriza a autopreservação em detrimento da resolução de problemas. As duas principais correntes sociais — as críticas verticais à justiça e as defesas horizontais da identidade — articulam, ainda que de maneiras diferentes, o mesmo problema fundamental: a perda de controle sobre as próprias circunstâncias de vida. E a intuição generalizada de que "os que estão no topo" perseguem seus próprios interesses, após uma análise sóbria, revela-se menos uma teoria da conspiração do que uma descrição simplificada, porém fundamentalmente plausível, de um sistema que se tornou cada vez mais distante de seus cidadãos.
O futuro do Estado-nação não será decidido em debates abstratos sobre soberania e supranacionalidade, mas sim na questão concreta de saber se será possível reestruturar as instituições políticas de modo que os cidadãos se vejam nelas representados. Isso exige uma mudança fundamental na cultura política: do abandono da administração tecnocrática do status quo para a construção democrática do que é possível. O Estado-nação pode ser um instrumento imperfeito, mas é o único que, até o momento, possuiu a legitimidade democrática para tomar decisões vinculativas em nome de seus cidadãos. Preservar essa legitimidade, ao mesmo tempo que se restaura a capacidade de ação perdida devido à burocracia, à globalização e à rigidez institucional, continua sendo o desafio crucial das próximas décadas. A resposta a esse desafio ainda está por vir.
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